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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Método de estudos: considerações sobre a proposta de Rogério Sanches


O professor Rogério Sanches, meu vizinho de município, apresentou hoje no Periscope uma sugestão de método de estudos sobre a qual gostaria de fazer uma apreciação. O diálogo é sempre importante e percebo que a disposição do professor Rogério em contribuir para os estudos dos alunos é grande, então, vale à pena conversar com ele.

O pressuposto do professor Rogério é o de que fazer resumo é um método muito trabalhoso, que não funcionava para ele. Por isso, ele sugere, basicamente, o seguinte: você pega a doutrina das 8 matérias principais (civil, processo civil, penal, processo penal, constitucional, administrativo, tributário e empresarial), lê e elabora 2 a 3 perguntas por página do livro, em um caderno, anotando apenas a página do livro onde está a resposta. No dia seguinte, antes de começar o estudo, você relê as perguntas de todos os dias anteriores. Se lembrar da resposta, passa adiante. Se esquecer, você volta no livro e lê a resposta. Se você esquecer a mesma pergunta dois dias você a anota em um caderno dos erros, agora com a resposta. Basicamente é isso.

Vantagens do método: estudar por perguntas é bom. Isso é inegável. A leitura simples da matéria faz com que, às vezes, algo pareça muito fácil, não problemático e, com isso, você passa direto. Lê, acha que é bobo e vai adiante. Na hora que cai na prova, você pensa “eu tenho certeza que estudei isso, mas não sei mais”. Lascou-se. Então, estudar por perguntas é bom, sem sombra de dúvidas.

Desvantagens e críticas:

O meu primeiro problema com o método é de pressuposto. Essa ideia, ainda que interessante, não me parece menos trabalhosa que um resumo. Se você fizer um resumo como eu recomendo aqui, com, em média, 10 páginas de livro em 1 de resumo, eu acho que você vai ter tanto trabalho quanto teria para fazer essas perguntas. Isso se comprova até matematicamente: 10 páginas de livro seriam 30 perguntas. 1 folha tem 30 linhas. Assim, no meu método de resumos, você leria 10 páginas e escreveria 1, no resumo. No método do professor Rogério, você leria 10 páginas e também escreveria 1, só que em forma de perguntas. Assim, não me parece verdadeiro que o método seja menos trabalhoso.

Minha segunda consideração é que o método me parece, do modo como foi elaborado, um pouco datado. Hoje, se você quer estudar por intermédio de perguntas, há uma infinidade de bibliografia disponível – inclusive do professor Rogério - com as perguntas já prontas, o que evitaria que você tivesse o trabalho de elaborar suas próprias questões. Me parece que esse tempo seria melhor utilizado fazendo um resumo do que fazendo as perguntas.

Terceiro: no longo prazo, o mais provável é que você vá esquecendo cada vez mais perguntas, aumentando cada vez mais o caderno de erros e, com isso, vai acabar fazendo um resumo nesse caderno, em paralelo ao outro, que você já fez nas perguntas.

Quarto: se forem verdadeiros os problemas anteriores, ao fazer um caderno de perguntas, você vai ter tanto trabalho de elaboração quanto teria para formular um resumo, mas vai terminar com algo que é menos do que um resumo, pois são perguntas, sem resposta. Pense que, em um livro de 1000 páginas, você teria 3000 perguntas, o que me parece um excesso.

Quinto: esse me parece um método com a cara do direito penal, matéria da preferência do professor Rogério (convenhamos, ninguém é perfeito, heheh). Pode ser que isso funcione se você faz perguntas do tipo “Cabe tentativa em crime omissivo?” ou “o que é erro de tipo?” Agora vá elaborar 3 perguntas em uma página de um Constitucional pesado, como é necessário para o MPF, ou de um Tributário horroroso, como o que foi exigido na PFN. Aí você vai ver a coisa pegar!

Sexto: quem faz um bom resumo, não faz para estudá-lo depois. É preciso compreender melhor o paradoxo dos resumos. O melhor resumo, hipoteticamente falando, é aquele que é tão bom que você nunca mais lê, porque, para elaborá-lo, você absorveu tão bem a matéria que não precisa do resumo mais. O resumo é apenas um gatilho de memória, não um novo livro que você está escrevendo.


De todo modo, apesar das minhas discordâncias em relação ao método, é interessante ver pessoas boas se dedicando a pensar formas de estudo. O professor Rogério não propôs, em sua intervenção, nenhum método milagroso ou inflexível. Pelo contrário, deixou clara a necessidade de esforço e só isso, no mundo de hoje, já é um grande mérito. E, é claro, se bem aproveitado, o método pode ter seu valor, para complementar o estudo de algumas matérias. Contudo, eu não o adotaria, de modo geral.

Professor Rogério fica desde já convidado para postar aqui a sua resposta. Será um prazer!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Da série não acredite em milagres: experiências irrepetíveis

Continuo, parafraseando José Simão, com a minha heroica e mesopotâmica cruzada de combater a venda de soluções mágicas na internet. Hoje quero falar sobre o golpe nº 1 do qual os candidatos são vítimas: experiências irrepetíveis.

O esquema é bem simples, quase tanto quanto um golpe do bilhete premiado. Alguém passou em um concurso cobiçado e se propõe a vender a fórmula da aprovação. Vejam bem: ele não se propõe a dar aulas ou dicar pontuais, mas a vender algum tipo de esquema que ele usou para passar que, se adquirido, permitiria o máximo de desempenho com o mínimo de esforço. Esses dias eu vi um que prometia que alguém ia ser juiz sem ler nenhum livro. Há outros que prometem que você vai estudar o edital inteiro, mais de uma vez, em umas poucas semanas. 

O ardil dessa venda está no fato de que ela é protagonizada por alguém que, de fato, alcançou o objetivo e, por isso, seria credenciado a afiançar a estratégia.

Vejam bem, eu não estou dizendo que essas pessoas fazem isso necessariamente por mal, embora acho provável que isso também ocorra. O que vendedores e compradores não percebem, nesse cenário, é que nem toda experiência de aprovação é repetível. Ser aprovado em um concurso é um evento multifatorial. Ele depende, entre outras coisas, da sua experiência de vida, do conhecimento que você acumulou durante a faculdade, da sua capacidade de raciocínio e de memorização e do rendimento que você consegue obter por hora de estudo. Todos esses fatores são profundamente variáveis entre as pessoas. Assim, ninguém pode andar nos sapatos de ninguém e o fato de você comprar os sapatos de alguém - o resumo, a técnica ou o que quer que seja - não significa que você vai chegar onde essa pessoa chegou.

Por exemplo, eu passei em todos os meus concursos públicos sem ler um livro de processo civil do início ao fim e você não me vêem aqui dizendo que ler livro de processo é inútil. O que aconteceu foi que eu tive aula de processo civil com aquele que considero o melhor professor do país (hoje aposentado): José Rubens Costa, a quem aproveito para registrar minha homenagem. Além de meu professor, ele também foi meu chefe no estágio e meu primeiro empregador. Processo civil, então, sempre foi a minha vida e eu já havia lido muito durante a faculdade. Ler sobre isso para a prova era (e foi) inútil.

Todavia, essa é uma experiência irrepetível. Se eu disser aqui que vou vender as minhas anotações de aula de processo civil, ou que alguém vai passar em concurso sem ler um livro de processo porque eu passei sem ler um livro de processo, vou estar, consciente ou inconscientemente, enganando o meu leitor. Nem todas as experiências são repetíveis. Como diria Neruda, em concursos, se faz o caminho ao caminhar. Então, se você quiser comprar alguma coisa do gênero do que eu descrevi aqui, o faça porque você considera que deve ser um material de qualidade, que vai ajudá-lo a incrementar seus próprios estudos, do seu próprio jeito, não porque isso seja uma fórmula milagrosa.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Para os graduandos: o motivo de se fazer uma boa faculdade

Eu já disse aqui, mais de uma vez, que minha dica mais importante para um graduando que quer passar em concurso é: faça uma boa faculdade. Nada de fazer cursinho enquanto estuda. No cursinho, a matéria é sempre ministrada com muita rapidez. Se você não tem base suficiente para entendê-la, você vai ter muita dificuldade para acompanhar as aulas. Em outras palavras. O professor de cursinho é como um cara jogando tijolos para você. Se você tiver um alicerce, pode transformá-los em uma parede. Caso contrário, você só leva tijolada na cara. 

Também já disse que fazer uma boa faculdade é muito diferente de fazer uma faculdade boa. Não interessa o quão renomada seja a sua faculdade se você não estuda mais do que para tirar 6 (ou 5, ou 7, ou qualquer outra que seja a nota mínima). Contentar-se com isso é a receita para o fracasso. Ir além, querer mais é o jeito de ser um candidato de sucesso.

Além disso, ser um bom aluno na faculdade faz com que você se acostume a estudar. Muita gente acha que existe uma fórmula mágica que, depois de 5 anos de sexo, drogas (lícitas, eu espero) e rock n'roll vai transformar um aluno displicente em um estudante modelo. 

Esqueça. Estudar é exatamente como fazer exercícios físicos. Se eu me levantar hoje e resolver que vou correr 42 km só vou conseguir acabar morto. Se alguém que nunca estudou resolve que hoje vai passar a estudar 14 horas por dia, a única coisa que vai conseguir é não aproveitar o seu dia. Eu garanto que o seu grau de absorção da matéria será muito baixo e que você vai parar em 2 semanas. 

Esses dias, um leitor, Caio Souza, comprovou, com uma maravilhosa história de sucesso, a minha tese. Recebi o seguinte e-mail, que ele me autorizou a divulgar:


"Boa tarde, professor.
Este é o segundo e-mail que envio para o sr. O primeiro não foi respondido.
Mas não se preocupe: eu entendi o seu silêncio.
Àquela época, havia sido aprovado em vários testes seletivos para estagiários, sendo a maioria em primeiro lugar.
Com aquela idade (talvez 20 anos), e ainda no quinto semestre, eu busquei sua orientação para o concurso do MPF. Perceba a audácia desse jovem rsrs.
Pouco tempo depois, li no seu blog a tarefa de quem ainda cursa a graduação: fazer uma boa faculdade.
Pronto. Estava ali a orientação que eu tanto queria.
De lá pra cá, dediquei-me o quanto pude para o curso de Direito da UFPI.
O resultado, meu amigo professor, foram duas aprovações nos dois únicos concursos que fiz na vida: PGE-BA e PGE-PI.
O primeiro passei no penúltimo semestre do curso; o segundo, no último. O detalhe é que, na PGE-PI, fui aprovado em 8º lugar com 23 anos.
O resultado deste último concurso saiu há alguns dias, mas lembrei de agradecê-lo somente hoje porque recebi outra notícia: serei laureado por ocasião da colação de grau, pois obtive o maior rendimento acadêmico da turma.
"Preocupa-te em fazer uma boa faculdade", certamente, foi o silêncio mais importante da minha vida.
Estou profundamente feliz.
Obrigado, professor!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O desafio da elaboração de resumos

Se tem uma coisa que sempre me interessou foi a dificuldade na criação e adoção de um método de fixação para os estudos. Eu me impressiono como, mesmo considerando que tenho uma boa memória, não lembro absolutamente mais nada de direito de família e sucessões, matérias que, venhamos e convenhamos, são muito chatas, mas que eu estudei bastante na faculdade. 

Há, na minha visão, 3 possíveis métodos de fixação que já abordei aqui. 

1 - A releitura dos materiais, que me parece praticamente inviável de ser adotada para concursos, dada a extensão do material;

2 - O sublinhamento dos livros e releitura apenas das partes sublinhadas. Há várias técnicas para isso, inclusive com o uso de várias cores, discutidas por alguns professores na internet. É uma técnica boa, mas com o risco de que, como sublinhar é muito fácil, você acabe terminando com uma parte substancial do livro para reler depois; 

3 - Elaborar resumos.

Eu já disse que os resumos são a técnica que mais me agrada. Embora lentos e dolorosos para elaborar, matéria resumida é matéria lembrada. Você dificilmente vai se esquecer daquilo que resumiu, porque seu cérebro precisa processar a informação e transformá-la em um escrito de sua autoria. Isso faz com que a informação seja internalizada e compreendida antes de você passar adiante. 

O lado ruim, certamente, é a demora e o trabalho que dá para elaborar o resumo. Como eu costumo valorizar mais a qualidade do que a quantidade do estudo, acho que isso é um preço interessante a se pagar. Aqui vão algumas dicas para melhorar o seu desempenho, caso a elaboração de resumos também seja a sua preferência: 

1 - Comece pelas matérias principais: resumos são demorados. Se você começar a estudar por direito empresarial, vai levar muito tempo até cobrir as matérias mais cobradas na maioria dos concursos. Se você está prestando, por exemplo, PFN, deve começar por direito tributário, assim, poderá cobrir o maior número de questões no menor tempo. 

2 - Pense bem se vale à pena: resumir é doloroso. Será que é válido resumir direito agrário? Provavelmente não. Mas essa é uma decisão que depende do seu grau de fixação com outros métodos de estudo. Se ele for baixo, então o resumo será válido.

3 - Sublinhe primeiro, resuma depois: com o tempo, eu cheguei à conclusão de que se você lê um segmento inteiro do livro antes de fazer o resumo, a compreensão global da matéria facilita a sua percepção de quais são os pontos principais, o que reduz o tamanho e a dificuldade na elaboração do resumo. Assim, o ideal é que você leia um capítulo, ou alguns subitens de um capítulo, sublinhando o que leu, para depois elaborar o resumo, apenas com base no sublinhado. Pode parecer um retrabalho, mas não é. Você vai escrever menos.

4 - Seja sucinto: o pior resumo é o resumo gigante. Se você não consegue uma média de, pelo menos, 1 página de resumo para 10 de texto, seu resumo vai ficar grande demais. Lembre-se de que você não está escrevendo um livro. O resumo só tem que fazer sentido para você mesmo. Não escreva nada que você acha que se lembraria de qualquer jeito, seja em razão de sua experiência prévia, do conhecimento acumulado ou porque você considera aquela informação óbvia. Essa é a dica mais difícil e só com o tempo você vai conseguir colocá-la em prática com mais desenvoltura.

5 - Escreva à mão: essa dica é polêmica e eu já a havia dado aqui no blog há algum tempo. Eu sempre achei que escrever à mão é melhor que fazer resumos digitados. Tenho a impressão de que o movimento das mãos para desenhar as letras é positivo para ativar o cérebro, mais do que a digitação. Pois bem, recentemente, pesquisadores da Universidade de Princeton concluíram que quem escreve à mão aprende mais e melhor. Vejam só:

"pesquisa de Pam Mueller, da Universidade de Princeton (EUA), e Daniel Oppenheimer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA), mostra que quem toma nota à mão aprende mais e melhor. Para chegar a esse resultado, eles dividiram estudantes em dois grupos: os que anotavam à mão e os que o faziam com laptops. Ao final, os dois grupos – que assistiram a aulas sobre biologia, religião, bioquímica, matemática, economia etc. – foram julgados nos quesitos memória, entendimento, capacidade de síntese e de generalização.
Os voluntários que anotaram à mão – apesar de terem perdido no que diz respeito à quantidade de dados registrada – acabaram se saindo melhor nos itens acima. Os resultados estão em Psychological Science. E o início do título é criativo: ‘A caneta é mais poderosa que o teclado’.
Fazer sem pensar
Por quê? Mueller e Oppenheimer acreditam que escrever à mão requer um processo cognitivo distinto do envolvido em teclar. Segundo eles, quem anota manualmente tem que ouvir, digerir e resumir a informação, pois não se tem a velocidade obtida ao se datilografar. E assim se captura a essência do conteúdo, obrigando o cérebro a se esforçar, o que aumentaria a compreensão e a retenção dos dados.
Ao se teclar, o cérebro não processaria o significado da informação, pois a velocidade da datilografia não deixaria muito tempo para se elucubrar sobre o conteúdo daquilo que se anota. Ou seja, teclar é algo, digamos, robotizado. Ou, como se diz popularmente, ‘fazer sem pensar’, ‘ligar no automático". 

Ainda desconfiado? Pesquisadores da Noruega chegaram à mesma conclusão, conforme texto disponível em http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,escrever-a-mao-melhora-o-processo-de-aprendizagem-aponta-estudo,668363

Então, meus caros, o negócio é deixar o computador para lá, aceitar que o resumo vai ficar um pouquinho zoneado, mas dar preferência ao bom e velho manuscrito.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reinaugurando o blog: 10 passos (não tão simples) para o sucesso em concursos

Aqueles que me dão a honra de acompanhar este blog há alguns anos sabem que eu não sou um blogueiro padrão. Não posto todo dia, não tenho opiniões fechadas e definitivas sobre tudo, não comento todos os assuntos do momento, não tiro selfies de mim mesmo (imagine só!) e sumo de vez em quando. Acho que quem passa por aqui há mais tempo está acostumado com isso.

Esse último sumiço, no entanto, por ter sido mais prolongado, merece explicação. Depois que retornei dos Estados Unidos, eu fiquei, é claro, absolutamente transtornado para terminar a tese. Trabalhando no MPF, dando aulas no Mackenzie, revisando o Estatuto da Igualdade Racial, que já saiu, e o Estatuto do Índio, que agora vem aí mesmo. Então, infelizmente, não é nem que eu não tivesse tempo, eu não tinha higidez mental para escrever.

Mas, tudo passou, e agora estou de volta e gostaria de conversar um pouco sobre o que vivi nesse período. Escrever uma tese de doutorado tem várias similaridades com o estudo para concurso público. Em primeiro lugar, é uma empreitada de longo prazo. A minha começou há exatamente quatro anos. Segundo, não há garantia de sucesso. Você pode se esforçar muito e terminar com uma tese medíocre ou mediana. Para quem só quer o título, tudo bem, mas para quem quer fazer alguma diferença para o estudo do tema, isso é muito frustrante. Terceiro, a autocobrança é incessante. Todos os momentos de folga são devotados ao tema. Eu tive inúmeras insônias relacionadas ao trabalho e, quando dormi, sonhei várias vezes com ele.

O estudo para concursos tem um agravante a mais: ele não tem prazo para acabar. Como, então, lidar com isso? Eu ofereceria algumas sugestões, que são, é certo, mais fáceis de escrever que de implementar:

1 – Fique frio: ao contrário do que eventualmente ocorre na graduação, eu nunca vi um candidato que ganhou um único ponto porque desatou a chorar para o examinador. Você precisa ser pragmático com o que você quer, com o que você está disposto a sacrificar para chegar lá e com as suas possibilidades pessoais. Se você só tem duas horas por dia para estudar, estude duas horas. Sem neura. Mas não espere ser Procurador da República em 1 ano. Não vai rolar.

2 – Acabou, acabou: por mais difícil que pareça, você precisa ter uma vida para além do direito, especialmente se você tem familiares (cônjuges, em especial), que também estão estudando. A história do “só se fala de concurso nessa casa” contribui para aumentar a tensão e não para otimizar o estudo.

3 – Estabeleça metas de curto, médio e longo prazo, tanto de estudo, quanto de desempenho: esse é o conselho mais batido, mas ele não é fácil de seguir. Você precisa saber o quanto está evoluindo. O que você quer ter estudado daqui a um mês? E daqui a seis meses? E daqui a um ano? Quando você acredita, realisticamente, que você deveria estar pelo menos nas etapas mais avançadas de um concurso? Ao ter uma noção mais firme disso, você poderá monitorar o seu progresso e verificar onde estão os problemas.

4 – Supra suas deficiências: sim, primeira etapa cai quase que só lei. Ok, mas se você não sabe nada de licitações, será que adianta ler a 8.666/93 seca? Eu diria que não. Você não vai entender quase nada e, com isso, memorizar se tornará um desafio maior. Você precisa entender pelo menos um pouco da matéria para depois mergulhar na lei seca. E qual lei estudar? Priorize, sempre, aquilo que você sabe menos. Entenda bem: todo concurso tem questões fáceis, médias e difíceis em cada matéria. Se você estudar pelo menos um pouco de cada coisa, poderá acertar um número substancial de questões, mesmo que você efetivamente não domine a matéria. O maior erro que vejo em preparação são pessoas se focando muito em uma coisa só, porque gostam dela, ou porque acham importante para a carreira. Não se engane: na maioria dos concursos, a relevância das matérias que são cotidianas para a atuação do profissional é menor do que deveria ser. O MPF é uma prova disso.

5 – Faça questões: você precisa responder, literalmente, milhares de questões. O aprendizado do texto corrente é muito diferente do que decorre da leitura plana do livro. Você perceberá aspectos que nem imaginava que não tinha entendido.

6 – Tire férias: a não ser que o seu tempo seja muito limitado, ou que você esteja nas etapas finais do concurso, você precisa interromper os estudos em algum momento. Não precisa ser férias de 30 dias. Podem ser só 5. Mas você precisa, em algum momento, parar. Isso colabora até mesmo para a absorção do conhecimento estudado.

7 – Pluralize: estudar por uma única fonte – só ler ou só assistir aula, ou só resolver questões – é geralmente muito cansativo e o rendimento é pequeno. Alternar entre fontes de estudo variadas é a melhor maneira de aprender de forma mais concreta.

8 – Contextualize: a leitura de teoria é pobre se você não sabe como aquilo é cobrado na prova, ou como é operado na prática. Depois de ler ou assistir aula sobre um conteúdo, é importante ler algumas decisões judiciais e resolver algumas questões sobre ele. A prática favorece a memorização.

9 – Diagnostique: você precisa saber o que está errado com você mesmo. O que está faltando? Qualidade no estudo? Mais tempo disponível? Mais regularidade (ao invés de estudar dez horas em um dia e nada nos dias seguintes, não seria melhor estudar 2 horas por dia?)? Mais habilidade para resolver questões de múltipla escolha? Você precisa desenvolver técnicas para identificar o que está errado e, a partir daí, pensar em correções.

10 – Não acredite em milagres. Há pessoas que passam em pouco tempo, há pessoas que levam anos para passar. Isso depende de várias condições pessoais, tais como capacidade de memorização e apreensão de informações, tempo disponível, conhecimento prévio, qualidade do estudo durante a faculdade.

É isso. Como eu disse, mais fácil de dizer do que de fazer. O que está aqui é uma síntese, mas tenho inúmeros outros posts pretéritos sobre cada um desses assuntos. Agora que estou de volta, vamos colocar o assunto em dia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Estatísticas da Prova Objetiva do MPF: como os números podem ajudar você a ser Procurador da República 2

Continuando a postagem anterior, vamos tratar das estatísticas do exame de Direito Administrativo, em relação ao examinador Nicolao Dino. Para quem não leu a postagem anterior, referente ao Direito Constitucional, solicito que a ela se refira, para minhas considerações metodológicas de como fiz a análise que aqui exponho. A distribuição das questões formuladas pelo examinador, na minha análise, ficaram assim: 

25º Concurso: 
Teoria: 9
Jurisprudência: 8
Lei: 23

26º Concurso:
Teoria: 23
Jurisprudência: 3
Lei: 12

27º Concurso: 
Teoria: 26
Jurisprudência: 11
Lei: 5

Minha análise: 

DICA 1: fica evidente que o peso das questões de lei seca vêm declinando substancialmente na prova de direito administrativo e ambiental. Por outro lado, o peso da teoria aumentou substancialmente. No 25º Concurso, a prova foi, na minha opinião, bastante fácil, especialmente em administrativo. O cenário começou a mudar no 26º, com uma prova mais complexa de ambiental e, especialmente no 27º, considerei a prova de ambiental bastante difícil e isso se deve exatamente ao aumento do peso de questões teóricas.  

DICA 2: Em todas as provas, o examinador fez uma pergunta sobre organização do MPF. Resta saber se vale à pena estudar toda ela em razão de uma questão. Difícil decisão, mas, se for estudar, todas as questões eram passíveis de ser resolvidas apenas com a LC 75 e a Constituição. Não vá além disso nessa matéria. 

DICA 3: A prova de administrativo, na minha visão, é mais fácil que a de ambiental. Foque seus estudos nesta, especialmente nos aspectos relacionados a unidades de conservação e distribuição de competências e atuação dos entes federados em matéria ambiental. Isso caiu demais. 

DICA 4: Está mais fácil chutar questões de administrativo - até porque é uma matéria que os candidatos invariavelmente sabem mais - do que ambiental. 


DICA 5: a prova do 27º teve muita teoria no ambiental e jurisprudência no administrativo. Eu acredito que essa tendência será mantida no 28º. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

A crise na Rússia

Há quase duas décadas atrás (que vergonha), eu gostava muito de palestras voltadas para o público empresarial, por influência do meu pai, que é comerciante. Hoje me lembrei de uma que me parece aplicável aos concursos públicos. O professor Marins, uma vez, contou que ele estava se deslocando para ir a uma palestra em uma cidade do interior e parou em um bar para comer alguma coisa. Segundo ele, o bar era sujo, com teias de aranha nos cantos, e faltando cadeiras para os clientes. Quando ele se dirigiu ao balcão, nada do que ele queria estava disponível e, quando ele finalmente encontrou algo para comer, o resultado foi decepcionante: uma fritura encharcada e um café morno. Enquanto fazia o seu lanche, Maris contou que começou a conversar com o proprietário e, quando este soube da sua atuação no ramo empresarial, a primeira coisa que disse foi: "Professor, eu estou muito preocupado com essa crise na Rússia!". 

Moral da história: ao invés de se preocupar em limpar o bar, oferecer produtos melhores ou tomar quaisquer providências que tivessem impacto imediato no seu negócio, o sujeito estava preocupado com eventos para além do seu controle, cuja possibilidade de impacto na sua realidade, apesar de efetivamente existente, é irrisória. 

Nesses anos de blog, uma das coisas que eu mais vi foram pessoas preocupadas com a crise da Rússia. Alunos começando o curso de Direito preocupados com três anos de atividade jurídica, outros que nem prestaram o concurso e estão preocupados com a prova de títulos, pessoas preocupadas com os locais onde serão lotados caso passem num concurso do qual não passaram nem da primeira etapa. Até gente preocupada com remoção de cargo que não ocupa eu encontrei! 

Não me entendam mal, eu não tenho problema algum em receber essas mensagens ou responder essas perguntas. Quem me conhece sabe que comigo não tem assunto proibido! As perguntas, inclusive, me ajudam a enriquecer o conteúdo do blog. A minha preocupação é o que passa na cabeça de quem faz essas perguntas. Se você está querendo saber esse tipo de coisa por simples curiosidade, tudo bem. Mas se você realmente se preocupa com elas, você está indo pelo caminho errado. Se você ainda está na graduação, eu já disse mil vezes que sua única preocupação deve ser estudar e se esforçar para terminar o curso com uma boa base. Fazer uma boa faculdade, independentemente de você cursar uma faculdade boa. Se você está prestando um concurso, preocupe-se com as etapas na medida em que elas se apresentam. Não adianta ter títulos ou ser bom de prova aberta se você não passa da primeira etapa. Acreditem, conheço várias pessoas que seriam excelentes em provas abertas, porque escrevem muito bem, mas simplesmente não passam da prova objetiva. 

Finalmente, locais de lotação ou facilidade de remoção, embora sejam fatores relevantes - foram relevantes para mim, pelo menos -, não podem ser a única razão ou a razão determinante para que você escolha uma carreira. Tendo escolha, ainda me parece melhor passar 35 anos fazendo o que você gosta no pior lugar do mundo do que fazendo o que você abomina na cidade em que você nasceu, cresceu e passou a sua vida inteira. Uma coisa que os meus colegas que foram lotados em localidades que não os agradava me ensinaram é que todos somos resistentes a mudanças. Por outro lado, todos somos extremamente adaptáveis. Colegas meu foram lotados em municípios dos quais nunca tinham ouvido falar, ansiosíssimos com a possibilidade de remoção e, em pouco mais de dois anos, já tinham se casado e decidido estabelecer residência definitiva nesses lugares. Só no meu concurso deve haver pelo menos cinco procuradores(as) nessa situação. A vida muda e, se você tiver um mínimo de abertura para mudanças, eu tenho certeza de que estar na carreira certa é muito mais recompensador do que estar no lugar que você desejaria. 

Eu fiz questão de escrever isso porque eu mesmo, muitas vezes, estive preocupado com a crise na Rússia e hoje sei que isso é um equívoco. Organizar as suas prioridades e investir energia naquilo que está sob seu controle é muito mais proveitoso, tanto em termos de alcance de metas, quanto de tranquilidade mental, do que se preocupar com possibilidades remotas de problemas que você nem sabe se vai ter. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

20 páginas por dia: o desafio 2

Quando escrevi o post “20 páginas por dia: o desafio”, não faltou quem dissesse que esse plano era maluco e que nunca terminaria a matéria se lesse só 20 páginas por dia. Pois bem, recebi um comentário tão interessante na postagem que resolvi destacá-lo aqui, já que muita gente não lê os comentários. Desde já, agradeço ao autor do comentário e passo a citá-lo literalmente:

“Pensando no aludido pelo professor montei um planejamento simples, vejamos:

Para concluir a leitura das "6 irmãs"elencadas logo abaixo é necessária a leitura de aproximadamente 9.731 páginas pelos livros elencados a seguir:

1-Direito Constitucional
Curso de Direito Constitucional
Dirley da Cunha Jr - 1.047 páginas

2-Direito Administrativo
José dos Santos Carvalho Filho ou Celso Antônio Bandeira de Mello Malheiros - 1.285 páginas

3-Direito Civil
Manual de Direito Civil - Volume Único. Flávio Tartuce. - 1.552 páginas

4-Direito Processual Civil
Manual de Direito Processual Civil
Daniel Amorim Assumpção. Volume Único – 1.476 páginas

5-Direito Penal
Manual de Direito Penal - Parte Geral – V. Único (Pág. 490)
Manual de Direito Penal - Parte Especial – V. Único (Pág. 841)
Rogério Sanches Cunha (Página 1.331)

6-Direito Processual Penal

Renato Brasileiro 1.709 páginas

TOTAL DE 9.731 PÁGINAS

Lendo 20 páginas por dia você conclui a bibliografia elencada em 486 dias, ou seja, 1 ANO e 7 MESES sem estudar Sábados e Domingos. Ao meu ver é um ótimo negocio, rs.

1 ANO = 365 DIAS
1 ANO(Sem contar Sábados e Domingos) = (365-96) = 269

Observação: Como elencou o Professor não adianta concluir a bibliografia e não lembrar de nada ao final, por isso é importante um método de fixação (resumos, resolução de exercícios e leitura dos resumos periodicamente).

Meu muito obrigado Professor pelas orientações.
Fraterno abraço!!!”

Então, lendo 20 páginas por dia, é possível estudar as 6 matérias principais em apenas 1 ano e 7 meses, sem estudar sábados ou domingos. Parece muito? Eu diria que não. Considere, por exemplo, que você tem que esperar 3 anos para prestar concursos da magistratura ou do ministério público. Ainda restariam 17 meses para estudar as outras matérias e ainda ficar no prazo mínimo exigido. Também é preciso considerar que, em média, as pessoas estudam mais do que isso para ser aprovadas. E, é claro, lendo 20 páginas por dia, você terá tempo para aplicar um excelente método de fixação, que o permita, de fato, apreender o que estudou.


Em síntese, trocar quantidade por qualidade é um grande negócio, mesmo quando você leva em consideração o tempo que vai levar para cumprir seu cronograma.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Apenas para os bons alunos

Ressaca pós-copa é o pior tipo de ressaca que existe. Parece primeiro dia de aula. Ao contrário de alguns fanáticos, eu nunca gostei de ir para a escola. Na verdade, não é bem isso. Eu até gostava da escola. O que eu não gostava é que o estado “escola” era excludente do estado “férias”, do qual eu gostava muito mais. Por isso eu nunca gostei do primeiro dia de aula que, além de representar o fim das férias, representava outra coisa com a qual eu não me dava muito bem: mudança. 

Explico. Eu sempre fui um bom aluno e, por isso, um novo ano representava um questionamento do status quo, no qual eu já havia afirmado meu lugar. Novo ano, novo tudo. Novos professores, nova matéria... E se eu descobrisse um bloqueio mental para alguma coisa e encravasse naquele novo ano?! 

Mas por que estou contando isso? É que a minha experiência como bom aluno me fez diagnosticar que bons alunos também têm problemas. E isso é mais inusitado do que parece, principalmente, para um bom aluno de direito. Afinal, direito é uma disciplina intelectual. O silogismo é: se o direito é uma disciplina que exige estudo e se eu sou um bom aluno, logo, eu sou bom em direito. Mas, meus caros bons alunos, esse estado de ser bom também tem seus problemas. 

Mas, antes de tudo, é preciso fazer um diagnóstico. Quem é bom aluno? Não existe, é claro, uma fórmula mágica para dizer quem é bom, mas eu colocaria os seguintes requisitos, do mais importante para o menos importante: 

1) Durante a Faculdade, você dedicava pelo menos 8 horas semanais, fora das aulas, para leitura de livros indicados pelo professor. 

2) Você obteve resultados acima da média da sua turma durante o curso. 

3) Você estudou em uma faculdade com uma proposta pedagógica séria. 

4) Você tinha facilidade para compreender as matérias, mesmo quando não as estudava adequadamente. 

Uma rápida explicação sobre os requisitos. O primeiro é, de longe, o mais importante. Quem estudou lendo doutrina durante a faculdade, indo além do simples conhecimento da sala de aula, 1) se acostumou a estudar, criando mais tolerância para o esforço que o estudo demanda; 2) criou uma base de conhecimento sólida, que permite a apreensão mais fácil do conhecimento necessário para o concurso. O segundo requisito é uma consequência do primeiro. Aprendi, ao longo da minha vida, que não existe essa história de que é melhor ser um rei entre os pobres ou um pobre entre os reis (ou coisa que o valha). O bom aluno se destaca, no longo prazo, mesmo quando vem de uma escola muito mais fraca para uma muito mais forte. Ele pega o ritmo. O mau aluno será sempre mau, esteja na melhor faculdade do mundo ou na pior. Ele sempre se nivela por baixo, pelo mínimo. 

O terceiro requisito é o mais complicado. Já disse várias vezes que fazer uma boa faculdade não é fazer uma faculdade boa. Eu apostaria meu dinheiro na aprovação de um excelente aluno de uma péssima faculdade do que no pior aluno da melhor faculdade. Mas sou obrigado a reconhecer que, perifericamente, esse fator “faculdade boa” tem importância. Ele aumenta suas chances de ter melhores professores, que lhe transmitam o conteúdo com mais qualidade, evitando que você tenha buracos na sua formação. 

Por fim, o último requisito, o menos importante, é o da chamada “facilidade” ou “inteligência”. Quantas vezes já ouvimos um professor dizer “Fulano é tão inteligente, pena que não se esforça”. Eu digo: então ele é burro, porque desperdiça a inteligência que tem. Direito é uma ciência que exige muito esforço e pouco talento. Não é como a engenharia, a medicina ou as artes, em que a pessoa pode simplesmente ser boa nisso. Só se aprende Direito estudando. Mas, de novo, perifericamente, eu reconheço que quem tem facilidade para aprender tem uma vantagem, pelo menos potencial, para se tornar um bom aluno. 

Pois bem, se você se reconheceu nesses elementos ou em alguns deles, você é um bom aluno e eu quero tratar aqui de alguns problemas que você provavelmente tem: 1) Você tem elevadas expectativas sobre si mesmo e sobre o tempo que vai levar para passar; 2) Você é resistente a mudanças, especialmente em relação ao seu método de estudos; 3) Você tem baixa tolerância a frustração. 

O primeiro problema é o mais comum e evidente. O bom aluno sai da faculdade achando que, ao final do primeiro ano de formado, vai ter um cargo público e, logo após três anos, vai ser juiz ou MP (ou algo mais que lhe interesse). Era isso que eu pensava e isso é um equívoco. Você deve, evidentemente, ter metas de aprovação e monitorar o seu progresso, fazendo um diagnóstico das suas reprovações. Mas estabelecer prazos tão apertados só servirá para pressioná-lo. Ser aprovado, hoje em dia, é algo que, em regra, leva tempo. Pense em você mesmo sempre como regra. Se for exceção, ótimo, mas não se julgue uma antecipadamente. Então, mesmo que você tenha se formado como o melhor de sua classe, o melhor é "baixar a bola" um pouco e ter consciência de que a aprovação pode demorar mais do que você gostaria. 

O segundo problema é o da mudança, ou "em time que está ganhando não se mexe". Quem é bom aluno acha que, sendo bom, sabe estudar e, por isso, não precisa mudar os métodos que utilizou na faculdade. Isso não é verdade. O estudo para concurso é diferente. Por exemplo, conheço muitas pessoas que se perdem porque querem estudar por livros muito profundos para a primeira etapa. Primeira etapa (salvo MPF) é lei e jurisprudência. Não adianta perder tempo lendo tratados. Conheço pessoas muito boas que nunca chegaram onde queriam porque não conseguem passar da primeira etapa. São "desorientadas" com o estudo. Correm de livro em livro e não entendem porque seus resultados são tão ruins, quando eram alunos tão bons. É preciso corrigir isso. 

Por fim, a tolerância ao fracasso. Esse é o problema psicológico. Quem quase nunca fracassou na vida, quando chega no concurso e não atinge o resultado esperado, tende a um desequilíbrio emocional em um prazo muito curto. Recebo mensagens de pessoas recém-formadas ou com dois ou três anos de formatura, completamente desestabilizadas porque não estão passando no concurso que queriam. Pessoal, vamos voltar para a Terra! A concorrência é muito grande, as provas são muito difíceis e a matéria é enorme. Eu sei que é difícil (acreditem, ninguém é mais dramático do que eu), mas, meu caro bom aluno, procure evitar que a frustração das elevadas expectativas que você tinha durante a graduação tirem você do seu caminho. 

Duas lições ficam: no longo prazo, esforço vale mais que capacidade. No longo prazo, não é infrequente que alunos piores (não os péssimos, mas os médios) cheguem mais longe que alunos melhores, porque eles aguentam ouvir 99 nãos antes de ouvir um sim. Os bons alunos têm dificuldade em aguentar isso e, para parar de sofrer, preferem diminuir seus objetivos e se contentar com uma meta menor. Esse é um grande obstáculo para um bom aluno superar.

sábado, 8 de março de 2014

Método de fixação: o valor das anotações

Quem acompanha o blog há algum tema sabe que o tema pelo qual tenho especial predileção é o relativo aos métodos de fixação. Porque, convenhamos, esse é o maior problema, de longe, para quem se dedica aos concursos públicos. Não é difícil entender as matérias que caem nas provas. Em regra, os temas não têm uma complexidade suficiente para que você saia de uma aula pensando “não entendi absolutamente nada”, como ocorre com muitos alunos de engenharia, ao se depararem com as matérias de cálculo, no primeiro semestre. 

Nosso problema é armazenar todos esse conhecimento que aprendemos nos livros e nas aulas de modo a permitir que ele seja habilmente utilizado no momento da prova. Já escrevi muito sobre a necessidade de se ter um método de fixação durante os estudos e acho que quem ainda não escolheu o seu deve voltar e dar uma vasculhada nas postagens mais antigas. 

O que quero tratar hoje é o valor das anotações de aula. É cada vez mais comum ver alunos que assistem aulas sem anotar absolutamente nada. As justificativas (a palavra que eu tinha usado originalmente era “desculpas”) são as mais variadas. A mais comum é: “se eu anoto, não consigo prestar atenção” ou “vou copiar as anotações do colega depois” ou “tenho a aula gravada, posso assistir de novo se quiser” ou ainda “não acho que anotar ajude”. 

Tudo isso, na minha opinião, está errado e acho que é essencial que você faça anotações em todas as aulas que assistir. Isso porque, a menos que você seja taquígrafo, não vai conseguir anotar literalmente tudo o que o professor disser. Então, você é obrigado a entender o que ele disse e produzir um conhecimento novo, com suas próprias palavras. Assim, o conhecimento tem que passar pelo filtro do seu cérebro antes de chegar ao caderno. E isso é uma ferramenta de memorização poderosa, mesmo que você nunca mais leia o que anotou. 

A outra questão é a distração. Se você não anota, é muito mais provável que, ao longo da aula, você “viaje” e perca coisas importantes. A preocupação com a anotação garante o foco no que é ensinado. 

Terceiro: anotar é uma habilidade e, como qualquer outra, pode ser desenvolvida. Ainda que você pense que tem dificuldades de prestar atenção na aula e anotar ao mesmo tempo, se você for se treinando para isso, certamente vai ficar melhor a cada dia. Essa história de não consigo prestar atenção se anotar é, para mim, muito mais uma desculpa para preguiça do que um obstáculo insuperável. 

Quarto: por todo o anterior, fica claro que xerocar o caderno do colega não tem o mesmo valor de fazer uma anotação própria. O que interessa na anotação, mais do que o resultado em si, é o exercício de anotar. 

Quinto e último: por muito febril que sejam suas anotações, você nunca vai passar muito de 5 a 6 páginas por aula de 50 minutos. Isso significa que, posteriormente, você vai levar menos de 10 minutos para reler essas páginas e, desse modo, revisitar os 50 minutos de aula. Assim, por muito que você tenha o material gravado, a anotação significa que, caso você precise retomar aquele conhecimento, não perca tanto tempo assistindo a aula inteira de novo. 

Anotar ajuda, e ajuda muito. Você pode ter o power point do professor, pode ter a aula gravada, pode ter qualquer coisa. É a anotação que vai fazer com que aquela ideia deixe de ser do professor e passe a ser sua. Deixe de preguiça, compre um caderno novo e comece o semestre anotando.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ordem e método: especial de fim de ano. A dor é necessária e o sofrimento, é opcional?

Um tema que eu considero sinceramente fascinante acerca da preparação para concursos é a questão do sofrimento. Existe uma visão corrente de que o sofrimento é condição para a aprovação. É preciso sofrer para ser aprovado. Então, nessa época do ano, é muito comum ver pessoas anunciando nas redes sociais, com orgulho, que não estão aproveitando as festas e sim se “preparando para a guerra” e outras analogias com batalhas.

Confesso que já fui assim. Acho que isso tem a ver com nossa percepção de merecimento. Só nos julgamos dignos de uma conquista quando sofremos. A conquista é a redenção que vem pelo sofrimento.

Tudo isso é bobagem. A dor é necessária para se passar em um concurso público. Por muito brilhante que alguém seja, terá que se privar de fazer muitas coisas que gostaria para estudar. É que o concurso exige fundamentalmente acúmulo de conhecimento, de modo que a capacidade intelectual é um facilitador, mas não resolve tudo. Quem promete que vai ensinar alguém a passar em concurso de modo indolor é charlatão.

Mas o sofrimento é opcional. O sofrimento é a autoimposição de uma dor inútil. É querer usar a dor como justificativa, como caminho para a aprovação. É achar que, porque sofri, tenho mais direito de ser aprovado.

O objetivo de quem estuda é, parafraseando os utilitaristas, maximizar o proveito e minimizar a dor. Não é vantagem aprender muito sofrendo muito, mas sim aprender muito sofrendo o mínimo possível.

É por isso que eu acho que, a não ser que você esteja inscrito em um concurso com prova em janeiro, não deve estudar no recesso de fim de ano. Isso é sofrimento desnecessário. Você vai se privar das festas, da companhia da família, em troca de um conhecimento que você poderá facilmente adquirir nas primeiras semanas do ano. Aproveite esse período para limpar sua mente, descansar do esforço do ano que passou e se preparar para os desafios que virão.

Além disso, o sofrimento não garante a aprovação. Ninguém passa porque sofreu. Passa porque adquiriu os conhecimentos necessários. A busca deve ser adquirir esses conhecimentos do modo menos sofrido, ainda que doloroso. Esse é o objetivo de todas as técnicas de estudo sérias, como as que eu proponho aqui no blog. Concordo plenamente com quem diz que o segredo para a aprovação é sentar e estudar. É mesmo. O problema é que tem gente que, mesmo sentando e estudando muito, não passa, porque não consegue tirar dessa dor o conhecimento necessário. Assim, a dor é só sofrimento, sem proveito. O que proponho aqui são mecanismos que possam ajudar o estudante a tirar o máximo proveito dessa dor.

A dor será sempre necessária, mas o sofrimento, acreditem, é opcional. Então, se você não tem prova marcada para janeiro, largue os livros, aproveite o reveillon e volte no dia 07 com força total. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ordem e método 3: o sonho do cargo público

Depois de seguir a orientação do post anterior com absoluta sinceridade você terá uma noção de onde você está em termos de proximidade de seus objetivos. Fui um aluno estudioso? Tenho boa base? A partir daí você terá mais condições de traçar seu objetivo em termos de cargo público.

Num dos primeiros posts deste blog (veja aqui) eu disse que cargo público não é uma corrida em que aprovação é a linha de chegada. Cargo público é o início de uma longa carreira, que consumirá praticamente toda a sua vida. Por isso, é muito importante fazer alguma coisa que você goste ou que, pelo menos, não deteste. Mas não sou nem romântico nem alienado e sei que a maioria das pessoas está mais preocupada em passar do que com o cargo que vai ocupar.

Acho que as duas situações têm que ser trabalhadas com ordem e método. 

Caso 1: pessoas que têm o sonho de ocupar determinado cargo. Tome cuidado para que o sonho não te sabote. O sonho deve ser fonte de estímulo, não de estresse. Se esse sonho faz com que você chegue no dia da prova tremendo, achando que sua vida vai acabar se não passar (talvez, de novo) naquela prova, é o momento para repensar isso. O cargo não pode ser maior que você mesmo. Abra um pouco o leque e passe a fazer outras provas, para reduzir a pressão.

Caso 2: pessoas que fazem tudo o que aparece. Tome cuidado para não perder o foco. Fazer concursos para ANAC, Banco Central, MPF, Juiz estadual, tudo ao mesmo tempo, fará com que você tenha que estudar muita legislação específica que cai em cada um deles, mas não cai nos outros. Isso é muito ruim. Escolha um concurso como meta de estudos e foque seus estudos no programa dele. Para fazer outras provas, procure concursos de programas relacionados, de modo que o estudo possa ser aproveitado.

Minha consideração final é: estabeleça metas alcançáveis. É ótimo ter o sonho de ser Procurador da República. Mas se você ainda está no meio da faculdade, você tem outras preocupações mais importantes. Se você acabou de se formar e ainda tem que cumprir o período de efetivo exercício, não se bitole fazendo apenas o concurso do MPF. Você pode até estudar pelo programa do MPF e, como ele engloba praticamente tudo, aproveitar o estudo para ir fazendo outras provas. A aprovação em concursos mais fáceis te dará a força que você precisa para continuar perseguindo seu objetivo final.

Vou terminar com uma citação muito profunda para quem tem a minha idade: “Para voar, deve aprender primeiro a se erguer e a andar. Não se pode voar num relance”. Segundo Akeem, o personagem de Eddie Murphy em “Um príncipe em Nova York”, essa frase é de Nietzsche. Eu não sei se é. Mas a considero verdadeira.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ordem e método 2

Meus amigos, na última oportunidade tratávamos da necessidade de ordem e método para os estudos (como isso já tem algum tempo, talvez seja interessante reler a primeira parte do texto, que está neste link). Você já seguiu a sugestão do post passado e escreveu sua linha geral de concursos: objetivo, tempo e espaço, ponto de partida, metodologia e método de fixação? 

O assunto que quero abordar hoje é o ponto de partida. É impossível chegar a algum lugar sem saber onde você está. Vejo cada vez mais pessoas se preocupando em como estudar para o concurso de Procurador da República no 2º período de faculdade. Isso está errado. Adotar essa postura fará com que você distorça os objetivos da faculdade, perdendo o foco de minha dica número 1 para quem ainda é estudante: faça uma boa faculdade. 

Existe uma coisa que eu chamo de senso ou raciocínio jurídico. É a habilidade de inferir respostas para problemas (e questões) a partir de um conhecimento geral do ordenamento e de como o direito funciona. Eu considero o senso jurídico uma das ferramentas mais valiosas do candidato. Com editais cada vez maiores, é impossível saber tudo. Aí entra o senso jurídico. 

“Certo, e onde isso está à venda”? Isso se adquire fazendo uma boa faculdade. Fazer uma boa faculdade é diferente de fazer uma faculdade boa. Faculdade boa é algo externo. Boa faculdade depende de quanto você leva à sério a faculdade e busca ir além do simples conhecimento transmitido pelos professores. Aqui entre nós, tem muito “professor” por aí que simplesmente lê um livro e parafraseia para a turma. Por melhor que seja sua faculdade, depende de você querer ir além, buscar outros conhecimentos, aprofundar o que é ensinado. 

Se eu pudesse fazer os estudantes de direito entender uma única coisa, seria essa. Para se formar em direito basta permanecer respirando por cinco anos. Não sei por que razão, quase não se reprovam alunos em direito, diferentemente do que acontece na engenharia, por exemplo (será que os engenheiros são mais burros do que nós?). Isso ilude o aluno no sentido de que o conhecimento transmitido pelo professor e o fato de ter tirado boas notas o transformam em um bom candidato. Se você não foi além, é possível que isso não seja verdade. 

E aqui eu estou incluindo aquelas matérias teóricas, que ninguém dá importância. As ICD, TGD, TGE, IED e outras siglas mais. São essas matérias que vão formar sua base de raciocínio. 

Por isso, meu convite de hoje é: faça um exame de consciência. Eu fiz uma boa faculdade? Eu tenho raciocínio jurídico? Eu consigo inferir resposta a perguntas mesmo sem saber exatamente como aquilo é regulamentado? Qual a bagagem de conhecimento que eu já tenho para começar os estudos para concurso. 

Se você for mesmo metódico, o melhor é repetir esse exame em relação a todas as matérias. Quando iniciei meus estudos eu sabia exatamente em quais as matérias eu era bom (administrativo, processo civil) e quais eu era praticamente analfabeto (penal, trabalho). Mesmo tendo feito uma faculdade boa e uma boa faculdade, isso decorreu da diferença entre os professores, de meu desinteresse pelas matérias, das experiências que tive como estagiário etc. Com esse autoexame, eu sabia exatamente por onde tinha que começar os estudos. 

Por fim, seja sincero consigo mesmo. Reconheça suas fraquezas. Não caia nessa de sair competindo com colega de cursinho. Se você tem deficiências, pense em como solucioná-las ao invés de ficar negando-as. Conhecer suas deficiências vai ajudá-lo a definir seu rumo e escolher o concurso certo. É isso que tratarei no próximo post

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ordem e método

Não sei se já contei isso aqui, mas minha leitura favorita de juventude (e, ainda hoje, apreciada sempre que tenho tempo) eram os romances de Agatha Christie. Particularmente, aqueles com Hercule Poirot. O detetive belga criado pela “Rainha do Suspense” sempre fazia piadas com uma clara referência a Sherlock Holmes, dizendo que o jeito de se resolver um mistério não era rastejando como um cão perdigueiro, mas com o uso das “pequenas células cinzentas” e, especialmente, com ordem e método.

Acho que o que falta para muitos candidatos em concurso é exatamente ordem e método. Principalmente para quem está começando a estudar, o campo de estudo parece tão vasto e os concorrentes parecem tão mais avançados que bate um desespero de querer tirar a diferença. Daí começam os erros, dentre os quais catalogo:
  1. Valorizar mais o tempo e o número de páginas lido que a qualidade do estudo – já tratei muito desse tema aqui.
  2. Estudar muitas horas em um dia e depois ficar dois ou três sem estudar nada.
  3. Matricular-se em sucessivos cursos e cursinhos, comprar variadas aulas pela internet, comprar uma montanha de livros, como se a reunião de acervo fosse suficiente para absorver o conhecimento.
  4. Comparar-se com todos os colegas: quem estuda mais, quem tirou a nota maior na prova anterior, quem faz a pergunta mais inteligente para o professor etc.
  5. Começar a fazer todos os concursos que surgem, sem priorizar nenhum. Tenta-se estudar “pelo edital”, alterando a todo momento o foco de estudo.
  6. Culpar-se. Todo momento de lazer acarreta culpa por não estar estudando.
Acho que vou parar por aqui. Já são problemas demais. Vou tentar dar algumas orientações em relação a esses obstáculos que muitos encontram.

A dica geral é: planeje-se. Eu sei que isso é muito difícil (para mim, foi muito difícil). Estabeleça metas, horários de estudo e, principalmente, uma estratégia de estudo. O que eu chamo de estratégia de estudo:
  1. Objetivo: Qual é o meu objetivo, em qual concurso quero passar? É possível traçar um objetivo de longo prazo e um de curto prazo, especialmente quando se trata de cargos que exigem efetivo exercício
  2. Tempo e espaço: De quanto tempo eu disponho diariamente para estudar? Em que lugar?
  3. Ponto de partida: Por qual matéria vou começar? Em quanto tempo pretendo terminar essa matéria? Qual a base de conhecimento que eu tenho dessa matéria?
  4. Metodologia: Vou estudar essa matéria assistindo aulas, lendo livros, lendo resumos?
  5. Método de fixação: Como vou estudar essa matéria? Lerei várias vezes, farei resumo ou grifarei o livro? Lembre-se que, de acordo com o grau de conhecimento prévio, o método de fixação pode variar de uma matéria para outra.

Já tratei de vários desses assuntos em postagens anteriores, mas quero retomar alguns deles, porque acho, sinceramente, que os candidatos estão cada vez mais perdidos com o excesso de ferramentas de estudo e de conhecimento disponível. É claro que é bom que o acesso a isso seja facilitado. Hoje, por exemplo, não é necessário mais se mudar para a capital para estudar, o que ocorria há poucos anos. Por outro lado, sem ordem e método, o candidato não progride. Se desgasta muito e não obtém resultados.

Eu convidaria meus leitores que se sentem nessa situação ao seguinte exercício: tome dez minutos para escrever sua linha geral de concursos: objetivo, tempo e espaço, ponto de partida, metodologia e método de fixação. Com isso você poderá avaliar onde estão seus problemas. Nas próximas postagens buscarei guiá-los por esse processo de avaliação, com o objetivo de identificar qual é o ponto que você precisa melhorar para obter a almejada aprovação. Com ordem e método, espero que você possa identificar sua fraqueza e o que vem afastando-o de seu objetivo.