quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Uso de medicamentos na preparação para concursos

Mais um tema delicado. Eu sempre trato desse assunto com meus alunos no curso para a prova oral, mas, por esses tempos, conversando com amigos, me conscientizei de que essa situação tem interesse generalizado, infelizmente.

Não é nada nova a concepção de que você pode ter uma ajuda a mais para vencer uma competição. É o princípio do doping esportivo. Vou tomar alguma coisa que vai melhorar minhas chances contra o adversário. Se essa lógica vale para os esportes, por que não valeria para os concursos?

Até onde eu sei, a origem remota desse negócio está nas autoescolas (que agora escreve junto. Maldito Lula!). As pessoas ficavam muito nervosas para fazer o exame de direção e alguém descobriu que tomar alguns tipos de remédios para hipertensão permitia baixar a frequência cardíaca sem a redução de concentração específica dos calmantes. Bom, é só um dia, então, que mal poderia fazer?

Capítulo 2: Ritalina. Apesar de existir desde os anos 50 como tratamento para depressão e outros transtornos psicológicos, nos anos 70 ela foi muito utilizada para tratar o TDAH nos Estados Unidos, mas foi nos anos 90 que seu uso explodiu. Há uma grande polêmica sobre os motivos que levaram a esse aumento no uso da Ritalina, mas, ao longo dos anos 2000, foram ajuizadas diversas ações coletivas, em variados países do mundo, acusando a Novartis e outros laboratórios que fabricam o produto de ter sobre-publicizado a droga, com a condescendência da Associação Americana de Psiquiatria (artigo do advogado de defesa disponível em https://www.morganlewis.com/pubs/66662D49-4024-4421-A857C78B2351E7DB_Publication.pdf) . Há, portanto, polêmica acerca do uso do medicamento inclusive no seu uso prescrito que não é o de preparação para concursos.

Ocorre que, em algum momento, algum “gênio” pensou: “se isso faz as crianças se concentrarem, talvez eu possa tomar e me concentrar melhor no estudo para concurso”. Bem, cada um cuida da sua vida, eu não sou pai de ninguém, mas aqui vão algumas considerações que acho úteis sobre essa decisão:

1) Efeito placebo: ao contrário dos anabolizantes, você não pode medir o aumento das suas faculdades mentais com uma fita. Se você toma algo que supostamente vai fazê-lo se concentrar mais, é possível que você se concentre mais só por saber que tomou. Não há como eliminar o efeito placebo em uma situação dessa. Não existe um grupo controle que você possa comparar. Se você acredita que esse negócio funciona, é provável que ele funcione porque você acreditou. A mente é uma coisa misteriosa, como diria Sheldon Cooper, então não há garantia absolutamente nenhuma de que você está efetivamente se beneficiando do medicamento;

2) Uso não prescrito: você está usando um remédio que não foi feito para isso. Isso significa que não há evidência científica, a não ser que você considere o boca-a-boca dos cursinhos ou o correioweb como equivalente da revista Nature, de que o remédio faça qualquer efeito para uma pessoa não doente que o toma com o objetivo de aumentar as suas faculdades mentais. Se houvesse, você não acha que os gênios da indústria farmacêutica já teriam patenteado e vendido isso pra você? Seja menos inocente. O dinheiro é a mola que move o mundo.

3) O consumo de Ritalina no Brasil cresceu 775% nos últimos dez anos, graças, em grande parte, à irresponsabilidade dos médicos, que prescrevem o remédio para quem não precisa dele e depois ficam dando entrevistas “alertando para os riscos do medicamento” Mas, seja como for, o fato é que as pessoas o estão tomando fora da finalidade prescrita, não apenas no Brasil, mas em vários países, para aumento de produtividade no trabalho. Mas, por quê? Se os médicos alertam para os riscos e se a indústria farmacêutica diz que o remédio não é pra isso, por que as pessoas tomam? Por uma característica inerente ao ser humano, que é a de conseguir um apoio para fazer algo que ele não se considera capaz. Antigamente, as pessoas rezavam para ter força e perseverança para atingir um objetivo. Hoje, tomam Ritalina. Vivemos um tempo engraçado em que a “ciência” se transformou em religião. Você acredita nela apenas porque acredita, não porque tenha sido demonstrado que ela é consistente. Nós pervertemos a ciência para se tornar algo que ela não é.

4) Efeitos colaterais: eu acredito que todo mundo que toma isso está bem ciente dos riscos. A pessoa toma porque acredita que não vai acontecer com ele. Então, não vou me alongar muito aqui, porque não tenho como argumentar contra essa ideia. Só quero ter certeza que todo mundo está na mesma página. Então, perca 2 minutos para ler só o abstract deste artigo http://www.springerplus.com/content/3/1/286 . Vou transcrever o ponto principal: “There were 38 adults (20 men, 18 women), of which 32 (88%) off-label use. In adults, methylphenidate was prescribed for depression, and this practice was associated with serious adverse events of drug dependence, overdose and suicide attempt”. Na conclusão, consta o seguinte “In half the reports where the use was considered to be off-label, the ADR was classed as serious”. ADR são os efeitos colaterais (adverse drug reaction), o que significa que a metade das pessoas que sofreu efeitos colaterais por tomar ritalina teve efeitos que foram considerados sérios. Então, pense bem no que você está arriscando. Eu tive alunos que relataram ter sofrido efeitos colaterais sérios tomando esse remédio.

5) Interações medicamentosas e contra-indicações: segundo a Food and Drug Administration – FDA, a ritalina tem interações medicamentosas até com vitaminas e remédios para gripe (http://www.fda.gov/downloads/Drugs/DrugSafety/ucm089090.pdf). Além disso, o mesmo relatório diz que o remédio não deve ser tomado por “crianças que são muito ansiosas, tensas ou agitadas”. Será que quem estuda para concurso está ansioso ou tenso?

6) Supondo que você não se convenceu até aqui. Acha que, mesmo que não haja prova de que o remédio funcione, que vale a pena arriscar os efeitos colaterais, que incluem morrer, eu perguntaria, será que a vantagem é tão grande assim? Eu tenho minhas dúvidas. Uma coisa é um programador de computador ou alguém que está escrevendo uma tese (não, eu não estou tomando isso) tomar Ritalina e trabalhar 14 horas. Ele completa uma tarefa e ela está pronta. Eu não preciso me lembrar constantemente do texto que escrevi na semana passada. Será que estudar tanto tempo por dia permitirá que você efetivamente absorva aquilo que estudou? Eu acredito que você consiga ler 300 páginas, mas você vai se lembrar delas daqui a duas semanas? Lembre que, se você ler 300 por dia, são 3000 para absorver ao final de 2 semanas. Será que dá? Eu me arrisco a dizer que não. E ninguém disse, nem o seu colega de cursinho, que Ritalina melhora a memória, só a concentração. Então, talvez esse negócio fosse bom pra mim, mas certamente não é pra você, que tem mais preocupação em absorver o que estudou do que em simplesmente cumprir metas de páginas.

7) Se, apesar de tudo, você tem mais dinheiro que bom senso e acha que mesmo assim, vai levar vantagem tomando ritalina ou qualquer outro medicamento que supostamente vai te ajudar a passar em um concurso, por favor, pelo menos procure um médico e faça um acompanhamento sério. Não vá apenas para pegar a receita, que ele certamente vai dar se você pedir. Eu não conheço cargo público que possa ser exercido por defunto (embora talvez alguns efetivamente sejam).

Ritalina, meus amigos, é só um exemplo, talvez o mais dramático. Infelizmente, vivemos um crise de consumo de medicamentos no mundo dos concursos, estimulada pelas metas irrealistas, pela pressão pela aprovação, pela noção equivocada de que o número de páginas e o colega da cadeira ao lado são como os jogadores do time adversário, que você precisa derrotar. No fim, não há nada de muito novo nisso. É só uma nova manifestação de um velho padrão de comportamento. Dê-me uma tarefa difícil e eu lhe mostrarei alguém disposto a vender um caminho fácil.

domingo, 28 de setembro de 2014

O canteiro de abóboras mais sincero

Sei que alguns de vocês devem estar se perguntando por que eu “sumi” aqui do blog (ok, essa não é a primeira vez, eu sei!). Esse é um ano muito significativo para mim. No final do ano, completo dez anos de graduação. Por mais convencionais que sejam essas datas, a gente acaba refletindo sobre o que fez, o que está fazendo e o que fará. E como a vida me trouxe o benefício de compartilhar algumas das minhas experiências com vocês, meus caros leitores, eu gostaria de fazer uma pausa para isso. 

Eu tenho basicamente três carreiras paralelas. A primeira e principal é o MPF. Dessa eu faço um propósito de não falar aqui no blog. Este site é do Professor Edilson e não do Procurador da República Edilson. Vocês vão encontrar na internet inúmeras notícias sobre o que eu fiz como Procurador, mas não aqui. Não acredito que minha atividade pública deva ser misturada com atividades privadas.

Minhas segunda carreira é a dos concursos públicos. Assim como o MPF, ela tem me feito muito feliz nos últimos 5 anos. Escrevi 2 livros e organizei 1. O Estatuto do Índio já está na segunda edição e, para aqueles que vem perguntando, já estou terminando a revisão do Estatuto da Igualdade Racial e Comunidades Quilombolas. Muita coisa mudou nesses dois anos, mas o livro sai ainda este ano. Também já finalizamos a terceira edição do Temas do MPF, que agora vai se chamar Temas Atuais do MPF. É a maior edição das três e está em fase de diagramação.

Mas o principal dessa minha carreira é, sem nenhuma demagogia, este humilde blog. Ele surgiu, para quem teve infância na década de 1980, com uma proposta de ser o canteiro de abóboras mais sincero. Compartilho aqui minhas opiniões mais sinceras sobre tudo, especialmente sobre preparação para concursos. No mundo do “como passar”, gosto de pensar no blog como “tudo aquilo que você precisa saber (e algumas coisas que você não gostaria de saber) sobre concursos públicos. 

O blog permitiu que eu conhecesse pessoas como candidatos, alguns desesperados precisando de um direcionamento ou, na maioria das vezes, mais de uma palavra amiga. Hoje vários são profissionais em diversas áreas do direito e alguns são meus colegas. Acredito que, considerando o pouco que eu escrevo, esse projeto foi muito bem sucedido, principalmente quando você olha para o 1,5 milhão de acessos aqui do lado direito! Nesses cinco anos, continuo anunciando só os meus livros. O restante das minhas indicações ou contraindicações (não acredito que essa palavra agora escreve tudo junto! Maldito Lula!) é totalmente desinteressada.  Enfim, não tenho palavras para agradecer, mais uma vez, pela confiança e só posso prometer que vou me esforçar para escrever mais.

A minha terceira carreira é a que vocês conhecem menos, mas é a novidade do momento. É a minha carreira de acadêmico “sério”, seja lá o que isso significa. Eu aqui me refiro à minha tentativa de contribuir para a ciência do direito, mais do que para a didática do direito. Isso começou com o meu mestrado, que concluí na minha querida UFMG em 2011 e está se concluindo agora, com o doutorado que espero terminar até o meio do ano que vem na acolhedora UFPR. Foi o doutorado que me levou, no último ano, de volta aos concursos. Resolvi que, como estou estudando ações coletivas, precisava conhecer melhor a experiência dos Estados Unidos. Por isso me candidatei a professor visitante/pesquisador visitante em várias Universidades e acabei aceito como professor visitante em Stanford, onde estou há um mês e meio, graças à decidida posição do MPF de valorizar os seus quadros, que me permitiu uma licença capacitação. Também fui aceito como pesquisador visitante em Harvard, então, quando as aulas aqui terminarem, embora eu continue com minhas atividades extraclasse, vou poder passar um tempo em Harvard também.

Isso é um grande marco para mim. Acho que não preciso descrever a conquista que é ser aceito (ainda que por um curto prazo), em duas das mais prestigiadas universidades do mundo. Mas também é a primeira vez que tenho oportunidade para estudar fora do país e de voltar a ser estudante, desde que ingressei no serviço público, há nove anos e um mês atrás. Espero, quem sabe, encontrar uma resposta para os problemas que me levaram a fazer o doutorado. E espero poder compartilhar um pouco dessa experiência com vocês, que também estudam. 

A primeira impressão, que quero deixar aqui para reflexão de vocês que estão estudando para concursos, é a seguinte: qual é o conceito de estudar “muito”? Vamos manter a sinceridade aqui no canteiro de abóboras, só entre nós. Eu tenho a impressão de que o que nós, brasileiros, chamamos de estudar “muito” não é estudar muito aqui. Vamos aos indícios:

1)   A biblioteca funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eu passei todos os sábados e alguns domingos nela. Nunca a vi vazia e olha que o ano letivo começou na semana passada. 

2)   O curso é integral e, em todas as matérias, o professor entrega, no primeiro dia, a lista de leituras para todas as aulas do semestre. É muita leitura e, no primeiro dia, todos os alunos tinham lido a matéria prevista para aquele dia. Isso mesmo. As pessoas receberam o programa antecipadamente e leram antes mesmo do semestre começar. 

3)   As discussões em sala de aula têm intensa participação dos alunos. É verdade, entretanto, que mesmo as turmas grandes só vão até 30 alunos. A maioria das turmas tem uns 15. 

Isso me fez refletir: quando alguém está estudando para concursos e diz que estuda “muito”, o que isso quer dizer exatamente? Vocês sabem que eu sou o defensor número 1 da qualidade antes da quantidade, basta ver o post anterior. Mas, comecei a me perguntar, será que nossos parâmetros não são muito baixos? Será que não passamos a faculdade inteira nos acostumando a fazer tão pouco que, depois, consideramos um esforço grande demais uma carga de estudo que não é assim tão exorbitante? Eu estudo muito e confesso a vocês que me sinto meio “zé moleza” no meio desse pessoal aqui. 

Ainda não tenho uma resposta pra isso, mas espero que consiga ter algo até o final do semestre.

É um grande prazer ter vocês por aqui. Obrigado!  

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

20 páginas por dia: o desafio 2

Quando escrevi o post “20 páginas por dia: o desafio”, não faltou quem dissesse que esse plano era maluco e que nunca terminaria a matéria se lesse só 20 páginas por dia. Pois bem, recebi um comentário tão interessante na postagem que resolvi destacá-lo aqui, já que muita gente não lê os comentários. Desde já, agradeço ao autor do comentário e passo a citá-lo literalmente:

“Pensando no aludido pelo professor montei um planejamento simples, vejamos:

Para concluir a leitura das "6 irmãs"elencadas logo abaixo é necessária a leitura de aproximadamente 9.731 páginas pelos livros elencados a seguir:

1-Direito Constitucional
Curso de Direito Constitucional
Dirley da Cunha Jr - 1.047 páginas

2-Direito Administrativo
José dos Santos Carvalho Filho ou Celso Antônio Bandeira de Mello Malheiros - 1.285 páginas

3-Direito Civil
Manual de Direito Civil - Volume Único. Flávio Tartuce. - 1.552 páginas

4-Direito Processual Civil
Manual de Direito Processual Civil
Daniel Amorim Assumpção. Volume Único – 1.476 páginas

5-Direito Penal
Manual de Direito Penal - Parte Geral – V. Único (Pág. 490)
Manual de Direito Penal - Parte Especial – V. Único (Pág. 841)
Rogério Sanches Cunha (Página 1.331)

6-Direito Processual Penal

Renato Brasileiro 1.709 páginas

TOTAL DE 9.731 PÁGINAS

Lendo 20 páginas por dia você conclui a bibliografia elencada em 486 dias, ou seja, 1 ANO e 7 MESES sem estudar Sábados e Domingos. Ao meu ver é um ótimo negocio, rs.

1 ANO = 365 DIAS
1 ANO(Sem contar Sábados e Domingos) = (365-96) = 269

Observação: Como elencou o Professor não adianta concluir a bibliografia e não lembrar de nada ao final, por isso é importante um método de fixação (resumos, resolução de exercícios e leitura dos resumos periodicamente).

Meu muito obrigado Professor pelas orientações.
Fraterno abraço!!!”

Então, lendo 20 páginas por dia, é possível estudar as 6 matérias principais em apenas 1 ano e 7 meses, sem estudar sábados ou domingos. Parece muito? Eu diria que não. Considere, por exemplo, que você tem que esperar 3 anos para prestar concursos da magistratura ou do ministério público. Ainda restariam 17 meses para estudar as outras matérias e ainda ficar no prazo mínimo exigido. Também é preciso considerar que, em média, as pessoas estudam mais do que isso para ser aprovadas. E, é claro, lendo 20 páginas por dia, você terá tempo para aplicar um excelente método de fixação, que o permita, de fato, apreender o que estudou.


Em síntese, trocar quantidade por qualidade é um grande negócio, mesmo quando você leva em consideração o tempo que vai levar para cumprir seu cronograma.

sábado, 23 de agosto de 2014

A importância de diagnosticar seus problemas

Muitas coisas vêm mudando na minha vida ultimamente, as quais pretendo compartilhar com vocês aqui no blog. Mas essa semana aconteceu uma que me fez refletir muito sobre algo que já escrevi aqui e que considero muito importante: a importância de identificar seus próprios defeitos.

Essa semana, troquei meu computador por um Mac. Isso era algo totalmente improvável para mim. Meu lado nerd nunca foi voltado para a informática. Sempre fui um usuário básico e levei muito tempo para superar as limitações de um razoável digitador de textos. Sou, devo confessar, da geração que entrou na adolescência ainda dividindo o MS-DOS e a máquina de escrever, coisas, ambas, que a maioria de vocês sequer deve ter visto em funcionamento. Eu já era bem grandinho quando surgiu o Windows 98. Computador não era pra mim. 

Mas o que mudou? O que mudou é que eu não aguento mais o Windows. O combo lentidão-travamento-reiniciar não funciona mais para mim. Mas, há 2 anos atrás, a Microsoft lançou um Windows prometendo uma revolução de tecnologia. Era o Windows 8. E qual foi a revolução? Acabou o botão iniciar. O desastre foi tão grande que, meses depois, eles lançaram um patch para voltar com o botão iniciar. 

Qual é a lição que podemos tirar disso para os nossos estudos? É preciso diagnosticar e corrigir o que está errado. Será que havia um usuário de computador, no mundo, que tivesse problemas com o botão iniciar? Vocês já ouviram alguém dizendo “eu odeio o Windows porque tem aquele botão antipático olhando pra mim do lado esquerdo da tela!”. Com certeza, não. 

Se você não entende o que está errado com o seu estudo, você é como o Pérola Negra (barco dos Piratas do Caribe) navegando sem aquela bússola engraçada. Você só irá para o lado certo por coincidência. E, muito provavelmente, irá para o lado errado. 

Eu vejo muitos alunos que não passaram de uma única primeira etapa com os livros do Marinoni e do Gilmar Mendes debaixo do braço, porque leram no Correioweb ou mesmo aqui no meu blog que eles são os melhores livros. Ok, são mesmo, mas o que adianta ter uma Ferrari se o que você quer é fazer um omelete? Toda ferramenta só é perfeita se aplicada na situação certa. Se você não passa na primeira etapa, o que você tem que ler é a lei, as súmulas do STF e STJ e, quem sabe, algum livro bem estilo resumo. 

Tenha muito cuidado com o ambiente de cursinho. Não caia na história de que você tem que ler o livro que o colega está lendo, porque é “muito mais profundo”. Se a sua prova não vai cobrar profundidade, não perca seu tempo nem seu esforço com livros profundos. Quando o colega te mostrar o Gilmar, não tenha vergonha de esfregar o Pedro Lenza na cara dele. 

Desculpem os leitores fiéis pela insistência nesse ponto. É que, quanto mais eu vivo nesse meio, mais eu vejo que esse é um problema “top 10” dos alunos. Entram na onda de exibir um conhecimento desnecessário para o concurso ao qual estão se submetendo e acabam demorando muito mais do que poderiam para passar. Saiba o que está errado com o seu estudo e procure o caminho certo para chegar onde você quer. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Apenas para os maus alunos

Se você está lendo isso é porque, provavelmente, não se identificou com minha postagem anterior e está pensando que eu deixarei você desamparado. Como já disse, eu não fui um mau aluno, então tenho menos propriedade para escrever para você, mas vou fazer o melhor que puder.

Primeiramente, é preciso avaliar as razões pelas quais você está se considerando um mau aluno. O que constitui um mau aluno, também em ordem de importância:

1) Você era o “Zé do caderno”. Nunca leu um livro jurídico na vida. Estudava apenas pelo caderno, nem sempre o seu próprio. O pouco tempo que dedicava ao curso fora da sala de aula era para estudar para provas e, mesmo assim, não mais que o necessário para ser aprovado.

2) Você não se destacava entre os seus colegas. Ou estava ali “no bolo” dos alunos médios (como diria minha diretora na escola) ou estava sendo reprovado.

3) Você estudou em uma faculdade que estava absolutamente tranquila com a sua decisão de transformar o curso numa festa de cinco anos, agradavelmente regada pela saudável paridade entre os gêneros que existe no curso de direito, diferentemente das engenharias ou da pedagogia. Se você continuasse respirando ao final de cinco anos, a faculdade te daria o diploma.

4) Você escreve mal.

5) Você tinha considerável dificuldade para compreender as matérias, mesmo se esforçando e estudando.

6) Você teve considerável dificuldade para passar na prova da OAB.

Tratemos um pouco de cada um desse itens. Se você não estudava na faculdade, é provável que você não tenha aprendido a estudar. Você não tem paciência para ficar horas e horas lendo livro, não sabe o que fazer para memorizar ou contextualizar o conhecimento que leu. Você está, então, limitado ao conhecimento que seus professores lhe transmitiram. O problema é que, sem estudo, por melhor que eles fossem, você provavelmente aprendeu pouco. O item 2 é consequência do 1. Como você não estudava, estava sempre na pindura das notas. Seus professores provavelmente se lembram de você por motivos não relacionados ao seu desempenho acadêmico ou não se lembram de forma alguma.

O item 3 é um catalisador do 1. Se você estudou apenas o que seus professores te ensinaram e eles não estavam preocupados em ensinar grande coisa, então você sabe menos ainda. Eu reitero que apostaria meu dinheiro em um bom aluno de uma faculdade ruim ao invés de um mau aluno de uma faculdade boa, mas se você era um mau aluno em uma má faculdade, sua situação não é nada boa.

O item 4 é independente dos anteriores. Eu digo aos meus alunos no 3º semestre: “Se você já percebeu que escreve mal, saia daqui hoje e procure uma aula de Português”. A faculdade não vai ensinar você a escrever e se você não tem um bom domínio da linguagem, ficará limitado para o resto da vida nessa profissão. Isso aqui não é engenharia! A linguagem é a nossa ferramenta. Mesmo que você seja muito bom, se escrever mal, vai ficar limitado a concursos que não têm prova aberta.

O item 5 também é independente e, na minha visão, é o mais doloroso. É a situação do aluno esforçado, que tem dificuldade. É aquele que estuda muito, mas o resultado não vem. Isso infelizmente é uma realidade. As pessoas têm capacidades de apreensão, compreensão e memorização distintas e, por isso, alguns têm mais dificuldade do que outros. Continuo insistindo que, no longo prazo, o esforço compensa a dificuldade. Mas dificuldade somada a malandragem é uma bomba nos seus resultados.

Por fim, o item 6 é a OAB. Todos sabem das minhas muitas críticas ao exame, cuja banalidade só é superada por sua arbitrariedade. Mas, é inegável que ele é um termômetro. Se você terminou o curso e, apesar de fazer cursinho, teve que prestar o exame três vezes ou mais, vamos reconhecer, não é o azar que está te atrapalhando. O azar pode justificar duas reprovações, mas não três.

Se você se identificou com os itens acima, especialmente com aqueles que estão mais para cima no grau de importância, você é um mau aluno. Assuma isso com tranquilidade e honestidade para consigo mesmo.

A primeira coisa a fazer, dada essa constatação, é se perguntar se concurso é mesmo a melhor decisão para você. Concurso é um empreendimento de disciplina e esforço intelectual. É dedicar muitas horas de sua vida a um objetivo. Não pense que apenas frequentar o cursinho para justificar para o seu pai que você não é um desempregado vai levar você à aprovação. Talvez seja melhor dedicar todo esse tempo a tentar estabelecer uma carreira na iniciativa privada, seja por conta própria, seja trabalhando para outrem. Honestidade, nesse momento, é algo que te fará bem.

Supondo que você tenha decidido que o que quer mesmo é fazer concurso, então, como diria o Sílvio Santos, em uma propaganda do finado Baú, você não precisa melhorar a sua vida, você precisa mudar de vida. Não vou perder tempo aqui repetindo tudo que já escrevi aqui no blog. Comece sua mudança lendo as postagens anteriores. Estabeleça uma rotina de estudos, um método de fixação, diagnostique suas reprovações etc. etc. Já escrevi muito sobre tudo isso. Leia especialmente a série de posts por onde começar e ordem e método.

Conscientize-se, entretanto, que essa mudança, tal como o Universo, não vai ser feita em um dia. Não adianta nada estudar 10 horas no primeiro dia e depois não aguentar nem olhar para o livro no segundo. Estabeleça um prazo que leve em consideração todo o tempo que você deveria ter estudado durante o curso e não espere resultados antes disso, salvo se você descobrir que tem muita facilidade para a coisa (isso, de fato, acontece com algumas pessoas).

Em segundo lugar, seja criterioso com seus próprios resultados. À medida que você for prestando concursos, fique atento a sua evolução ou à ausência dela. Escrevi muito sobre isso em A hora de parar. Se você presta concurso só para enganar alguém, procure não enganar também a si mesmo. Sair da prova dizendo “foi fácil” e depois ficar na posição dez mil excedente pega muito mal.

Em terceiro lugar, se você quer mesmo passar, prepare-se para privações. Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu não sou adepto do sofrimento. Acho, sim, que dá para passar sem sofrer. Mas não para quem era um mau aluno. Isso porque o seu limite de sofrimento é muito baixo. Você se acostumou tanto a uma vida de esbórnia que certamente vai se sentir um monge se for estudar seriamente. Mas, reitero, isso não significa que você precise abandonar o convívio social. Significa apenas que você não vai ser tão social quanto era na faculdade. Digamos, dez por cento do que era.

Pra terminar, os dois assuntos diferentes da turma da gandaia: quem escreve mal e quem tem dificuldade. Se você escreve mal, repito, procure um professor. Não é vergonha estudar Português, como muita gente parece pensar. Eu estou fazendo aulas de tênis (resolvi por a prova a tese que alguém escreveu em um comentário do post “A hora de parar”, segundo o qual, se eu quisesse mesmo, poderia me tornar o novo Nadal. Por enquanto, devo dizer, esse projeto vai mal) e, depois de mim, entra na quadra, com o mesmo professor, um menino de 10 anos chamado Giovani. Nem por isso eu saí da aula ou me senti mortalmente envergonhado. Português é a mesma coisa. Se você não aprendeu na escola, não tenha vergonha de buscar sanar essa dificuldade.

E você que estuda muito e, mesmo assim, tem dificuldade de aprendizado. Já vi muitos alunos assim e, confesso, é uma situação dolorosa. Nós somos treinados para acreditar que o resultado é uma consequência direta e necessária do esforço. Dói muito quando percebemos que não é ou, pelo menos, não para todos. Eu peço a você, que está nessa situação, que se imagine como um joalheiro: você só fará um bom trabalho se o fizer bem lentamente. Sua preocupação não é com quantidade, mas com qualidade. Não importa que você leia uma página por dia, desde que você a apreenda. Minha postagem “20 por dia: o desafio” certamente é pra você. Aproveite que você terminou a faculdade e estabeleça um ritmo próprio de estudo, desvinculado de uma turma. Procure também encontrar a metodologia de estudo que se adapta melhor ao seu perfil de aprendizagem. Aula, leitura, exercícios, um pouco de cada, enfim, experimente bastante. Nosso método nas faculdades ainda é muito expositivo e nem todo mundo se dá bem com isso. Pode ser que a sua dificuldade seja apenas de adaptação a esse estilo e não propriamente com a matéria.

Enfim, meus caros maus alunos, saibam que a situação de vocês tem solução. Um mau aluno pode passar em concurso e muitos, de fato, passam. Mas você vai ter que pagar a dívida com o seu passado.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Apenas para os bons alunos

Ressaca pós-copa é o pior tipo de ressaca que existe. Parece primeiro dia de aula. Ao contrário de alguns fanáticos, eu nunca gostei de ir para a escola. Na verdade, não é bem isso. Eu até gostava da escola. O que eu não gostava é que o estado “escola” era excludente do estado “férias”, do qual eu gostava muito mais. Por isso eu nunca gostei do primeiro dia de aula que, além de representar o fim das férias, representava outra coisa com a qual eu não me dava muito bem: mudança. 

Explico. Eu sempre fui um bom aluno e, por isso, um novo ano representava um questionamento do status quo, no qual eu já havia afirmado meu lugar. Novo ano, novo tudo. Novos professores, nova matéria... E se eu descobrisse um bloqueio mental para alguma coisa e encravasse naquele novo ano?! 

Mas por que estou contando isso? É que a minha experiência como bom aluno me fez diagnosticar que bons alunos também têm problemas. E isso é mais inusitado do que parece, principalmente, para um bom aluno de direito. Afinal, direito é uma disciplina intelectual. O silogismo é: se o direito é uma disciplina que exige estudo e se eu sou um bom aluno, logo, eu sou bom em direito. Mas, meus caros bons alunos, esse estado de ser bom também tem seus problemas. 

Mas, antes de tudo, é preciso fazer um diagnóstico. Quem é bom aluno? Não existe, é claro, uma fórmula mágica para dizer quem é bom, mas eu colocaria os seguintes requisitos, do mais importante para o menos importante: 

1) Durante a Faculdade, você dedicava pelo menos 8 horas semanais, fora das aulas, para leitura de livros indicados pelo professor. 

2) Você obteve resultados acima da média da sua turma durante o curso. 

3) Você estudou em uma faculdade com uma proposta pedagógica séria. 

4) Você tinha facilidade para compreender as matérias, mesmo quando não as estudava adequadamente. 

Uma rápida explicação sobre os requisitos. O primeiro é, de longe, o mais importante. Quem estudou lendo doutrina durante a faculdade, indo além do simples conhecimento da sala de aula, 1) se acostumou a estudar, criando mais tolerância para o esforço que o estudo demanda; 2) criou uma base de conhecimento sólida, que permite a apreensão mais fácil do conhecimento necessário para o concurso. O segundo requisito é uma consequência do primeiro. Aprendi, ao longo da minha vida, que não existe essa história de que é melhor ser um rei entre os pobres ou um pobre entre os reis (ou coisa que o valha). O bom aluno se destaca, no longo prazo, mesmo quando vem de uma escola muito mais fraca para uma muito mais forte. Ele pega o ritmo. O mau aluno será sempre mau, esteja na melhor faculdade do mundo ou na pior. Ele sempre se nivela por baixo, pelo mínimo. 

O terceiro requisito é o mais complicado. Já disse várias vezes que fazer uma boa faculdade não é fazer uma faculdade boa. Eu apostaria meu dinheiro na aprovação de um excelente aluno de uma péssima faculdade do que no pior aluno da melhor faculdade. Mas sou obrigado a reconhecer que, perifericamente, esse fator “faculdade boa” tem importância. Ele aumenta suas chances de ter melhores professores, que lhe transmitam o conteúdo com mais qualidade, evitando que você tenha buracos na sua formação. 

Por fim, o último requisito, o menos importante, é o da chamada “facilidade” ou “inteligência”. Quantas vezes já ouvimos um professor dizer “Fulano é tão inteligente, pena que não se esforça”. Eu digo: então ele é burro, porque desperdiça a inteligência que tem. Direito é uma ciência que exige muito esforço e pouco talento. Não é como a engenharia, a medicina ou as artes, em que a pessoa pode simplesmente ser boa nisso. Só se aprende Direito estudando. Mas, de novo, perifericamente, eu reconheço que quem tem facilidade para aprender tem uma vantagem, pelo menos potencial, para se tornar um bom aluno. 

Pois bem, se você se reconheceu nesses elementos ou em alguns deles, você é um bom aluno e eu quero tratar aqui de alguns problemas que você provavelmente tem: 1) Você tem elevadas expectativas sobre si mesmo e sobre o tempo que vai levar para passar; 2) Você é resistente a mudanças, especialmente em relação ao seu método de estudos; 3) Você tem baixa tolerância a frustração. 

O primeiro problema é o mais comum e evidente. O bom aluno sai da faculdade achando que, ao final do primeiro ano de formado, vai ter um cargo público e, logo após três anos, vai ser juiz ou MP (ou algo mais que lhe interesse). Era isso que eu pensava e isso é um equívoco. Você deve, evidentemente, ter metas de aprovação e monitorar o seu progresso, fazendo um diagnóstico das suas reprovações. Mas estabelecer prazos tão apertados só servirá para pressioná-lo. Ser aprovado, hoje em dia, é algo que, em regra, leva tempo. Pense em você mesmo sempre como regra. Se for exceção, ótimo, mas não se julgue uma antecipadamente. Então, mesmo que você tenha se formado como o melhor de sua classe, o melhor é "baixar a bola" um pouco e ter consciência de que a aprovação pode demorar mais do que você gostaria. 

O segundo problema é o da mudança, ou "em time que está ganhando não se mexe". Quem é bom aluno acha que, sendo bom, sabe estudar e, por isso, não precisa mudar os métodos que utilizou na faculdade. Isso não é verdade. O estudo para concurso é diferente. Por exemplo, conheço muitas pessoas que se perdem porque querem estudar por livros muito profundos para a primeira etapa. Primeira etapa (salvo MPF) é lei e jurisprudência. Não adianta perder tempo lendo tratados. Conheço pessoas muito boas que nunca chegaram onde queriam porque não conseguem passar da primeira etapa. São "desorientadas" com o estudo. Correm de livro em livro e não entendem porque seus resultados são tão ruins, quando eram alunos tão bons. É preciso corrigir isso. 

Por fim, a tolerância ao fracasso. Esse é o problema psicológico. Quem quase nunca fracassou na vida, quando chega no concurso e não atinge o resultado esperado, tende a um desequilíbrio emocional em um prazo muito curto. Recebo mensagens de pessoas recém-formadas ou com dois ou três anos de formatura, completamente desestabilizadas porque não estão passando no concurso que queriam. Pessoal, vamos voltar para a Terra! A concorrência é muito grande, as provas são muito difíceis e a matéria é enorme. Eu sei que é difícil (acreditem, ninguém é mais dramático do que eu), mas, meu caro bom aluno, procure evitar que a frustração das elevadas expectativas que você tinha durante a graduação tirem você do seu caminho. 

Duas lições ficam: no longo prazo, esforço vale mais que capacidade. No longo prazo, não é infrequente que alunos piores (não os péssimos, mas os médios) cheguem mais longe que alunos melhores, porque eles aguentam ouvir 99 nãos antes de ouvir um sim. Os bons alunos têm dificuldade em aguentar isso e, para parar de sofrer, preferem diminuir seus objetivos e se contentar com uma meta menor. Esse é um grande obstáculo para um bom aluno superar.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ainda os tempos mortos

Recebi um comentário muito interessante na postagem anterior, “Tempos mortos”, que resolvi destacá-lo aqui, já que muita gente não lê os comentários:

“De fato, no meu histórico de estudos nesses dois anos pude constatar algo que vai ao encontro do que relatou. Eu trabalho 8h por dia (9h contando com 1h de almoço. Já sou servidor, mas de nível médio), ou seja, tenho um tempo bem curto. Durante a semana, eu me rebolo pra conseguir todas as brechas possíveis pra estudar, independente do lugar. No meu trabalho eu viajava bastante durante o tempo, ou seja, quebrava a rotina, mas mesmo assim conseguia bons resultados no estudo otimizando todos os tempos possíveis. Outro detalhe é que meu trabalho exige muita produção intelectual, o que quer dizer que queimo muito a cabeça no dia, o que já me cansa bastante. No entanto, durante esse período (até hoje mesmo), constatei algo: eu rendo infinitamente mais durante um dia da semana do que no meu sábado que, em tese, deveria ser livre. Incrível isso! E olha que sou muito disciplinado!!!! É impressionante como no sábado os estudos andam a passos bem mais lentos (quando ocorrem a contento) do que em qualquer dia da semana que tenho bem menos tempo.
O domingo, então, nem se fala, pois aqui já entra aquela preguiça, enfim.

No entanto, mesmo com esse cenário, meus estudos da semana já me renderam ótimos resultados em concursos jurídicos. Estou bem colocado em um de analista (com probabilidades de ser nomeado ainda esse ano), relativamente bem em outro de oficial de justiça e mais ou menos em outro de analista, também.

Digo isso não pra me gabar e dizer que mesmo sem aproveitar o meu final de semana de forma ideal pra estudar eu consegui bons resultados. Não! Apenas pra relatar que mesmo encontrando, digamos, obstáculos rotineiros a serem administrados (em relação a trabalho, viagens a trabalho, ainda o fato de ter que fazer atividades domésticas, pois não moro com meus pais) eu consegui, com muito esforço, dar um upgrade em meus estudos, o que me logrou alguns resultados consideráveis.

Vejo colegas meus de trabalho que moram com os pais (ou seja, não tem atividades domésticas pra fazer) e não têm namorada pra dar atenção reclamando de falta de tempo pra estudar, tirando licenças só pra estudar ou outros afirmando que só vão se dedicar quando tiverem licença, ou forem pra um setor que o permita. Enfim, isso fica muito claro que tudo vai do "querer" da pessoa, que cada um se impõe seus próprios "obstáculos". Fato é que ficar esperando a "hora certa", as condições consideradas "ideais" para se estudar, já era, é tempo perdido.

Da mesma forma que eu, existem uma série de outras pessoas que superam todos os ditos obstáculos e conseguem aprovação em concursos que exigem ainda mais. Na verdade, eu me vejo ainda com muita sorte, pois apesar do contexto e de já ser casado, ainda não tenho filhos para ser outro fator a ser administrado na hora do estudo.
Abraços,”

Esse leitor acertou na mosca, e em vários pontos. Eu também tenho a sensação que o sábado ou, principalmente, o domingo, aquele dia em que você tem mais tempo para estudar, é o dia que rende menos. Não tem clima. Você fica ali horas e o rendimento é muito pequeno. É preciso tentar equilibrar as coisas. Nesses dias difíceis, faça um pacto consigo mesmo de estudar menos horas, ao invés de se propor a ficar o dia todo, mas de fazer render essas horas o máximo possível. Essa história de muito tempo acaba significando, muitas vezes, apenas um aumento do sacrifício, não do benefício.

Também é difícil estudar para quem tem um trabalho que exija atividade intelectual, como é o caso da maioria. Eu mesmo sinto isso. Tenho que fazer minhas atividades do doutorado à noite, depois de toda a minha jornada no MPF. Minha dica é deixar para os dias em que você estiver mais cansado as atividades de estudo que exigem menos atenção ou são mais dinâmicas, como é o caso de assistir aulas ou resolver exercícios. A leitura deve ser reservada para dias em que você esteja melhor, uma vez que ela exige mais concentração.

Por fim, queria fechar com o problema da distribuição do tempo ao longo do estudo. É preciso que você se organize e, principalmente, evite desconcentrações. Como nós atualmente estudamos no computador com cada vez mais frequência, tem-se tornado cada vez mais difícil manter-se concentrado. É uma olhadinha no facebook, uma mensagem no whatsApp, uma checada em um portal de notícias. Isso é um veneno! Se você está cansado, faça uma pausa e depois volte com toda a concentração. Mas não fique “picando” seu estudo com outras atividades. Pode parecer que só leva um minutinho para responder a uma mensagem, mas o tempo perdido para a recuperação da concentração é muito maior.

O mesmo vale para tarefas domésticas. Você até pode realizá-las durante as pausas, como uma forma de esfriar a cabeça. Mas isso deve fazer parte do plano. Ficar se interrompendo a todo momento para resolver isso, fazer aquilo etc. é, do mesmo modo, um problema considerável.

Por último, lembre-se de que a capacidade de absorção do cérebro é limitada. Já escrevi, inúmeras vezes, que tempo de estudo não se mede em “horas-bunda”, mas no quanto você aprendeu. Você precisa monitorar o que está aprendendo ou não para saber a que horas deve interromper o estudo.

Tempo é o seu ativo mais valioso. Cada minuto perdido significa um grande prejuízo.