quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Uso de medicamentos na preparação para concursos

Mais um tema delicado. Eu sempre trato desse assunto com meus alunos no curso para a prova oral, mas, por esses tempos, conversando com amigos, me conscientizei de que essa situação tem interesse generalizado, infelizmente.

Não é nada nova a concepção de que você pode ter uma ajuda a mais para vencer uma competição. É o princípio do doping esportivo. Vou tomar alguma coisa que vai melhorar minhas chances contra o adversário. Se essa lógica vale para os esportes, por que não valeria para os concursos?

Até onde eu sei, a origem remota desse negócio está nas autoescolas (que agora escreve junto. Maldito Lula!). As pessoas ficavam muito nervosas para fazer o exame de direção e alguém descobriu que tomar alguns tipos de remédios para hipertensão permitia baixar a frequência cardíaca sem a redução de concentração específica dos calmantes. Bom, é só um dia, então, que mal poderia fazer?

Capítulo 2: Ritalina. Apesar de existir desde os anos 50 como tratamento para depressão e outros transtornos psicológicos, nos anos 70 ela foi muito utilizada para tratar o TDAH nos Estados Unidos, mas foi nos anos 90 que seu uso explodiu. Há uma grande polêmica sobre os motivos que levaram a esse aumento no uso da Ritalina, mas, ao longo dos anos 2000, foram ajuizadas diversas ações coletivas, em variados países do mundo, acusando a Novartis e outros laboratórios que fabricam o produto de ter sobre-publicizado a droga, com a condescendência da Associação Americana de Psiquiatria (artigo do advogado de defesa disponível em https://www.morganlewis.com/pubs/66662D49-4024-4421-A857C78B2351E7DB_Publication.pdf) . Há, portanto, polêmica acerca do uso do medicamento inclusive no seu uso prescrito que não é o de preparação para concursos.

Ocorre que, em algum momento, algum “gênio” pensou: “se isso faz as crianças se concentrarem, talvez eu possa tomar e me concentrar melhor no estudo para concurso”. Bem, cada um cuida da sua vida, eu não sou pai de ninguém, mas aqui vão algumas considerações que acho úteis sobre essa decisão:

1) Efeito placebo: ao contrário dos anabolizantes, você não pode medir o aumento das suas faculdades mentais com uma fita. Se você toma algo que supostamente vai fazê-lo se concentrar mais, é possível que você se concentre mais só por saber que tomou. Não há como eliminar o efeito placebo em uma situação dessa. Não existe um grupo controle que você possa comparar. Se você acredita que esse negócio funciona, é provável que ele funcione porque você acreditou. A mente é uma coisa misteriosa, como diria Sheldon Cooper, então não há garantia absolutamente nenhuma de que você está efetivamente se beneficiando do medicamento;

2) Uso não prescrito: você está usando um remédio que não foi feito para isso. Isso significa que não há evidência científica, a não ser que você considere o boca-a-boca dos cursinhos ou o correioweb como equivalente da revista Nature, de que o remédio faça qualquer efeito para uma pessoa não doente que o toma com o objetivo de aumentar as suas faculdades mentais. Se houvesse, você não acha que os gênios da indústria farmacêutica já teriam patenteado e vendido isso pra você? Seja menos inocente. O dinheiro é a mola que move o mundo.

3) O consumo de Ritalina no Brasil cresceu 775% nos últimos dez anos, graças, em grande parte, à irresponsabilidade dos médicos, que prescrevem o remédio para quem não precisa dele e depois ficam dando entrevistas “alertando para os riscos do medicamento” Mas, seja como for, o fato é que as pessoas o estão tomando fora da finalidade prescrita, não apenas no Brasil, mas em vários países, para aumento de produtividade no trabalho. Mas, por quê? Se os médicos alertam para os riscos e se a indústria farmacêutica diz que o remédio não é pra isso, por que as pessoas tomam? Por uma característica inerente ao ser humano, que é a de conseguir um apoio para fazer algo que ele não se considera capaz. Antigamente, as pessoas rezavam para ter força e perseverança para atingir um objetivo. Hoje, tomam Ritalina. Vivemos um tempo engraçado em que a “ciência” se transformou em religião. Você acredita nela apenas porque acredita, não porque tenha sido demonstrado que ela é consistente. Nós pervertemos a ciência para se tornar algo que ela não é.

4) Efeitos colaterais: eu acredito que todo mundo que toma isso está bem ciente dos riscos. A pessoa toma porque acredita que não vai acontecer com ele. Então, não vou me alongar muito aqui, porque não tenho como argumentar contra essa ideia. Só quero ter certeza que todo mundo está na mesma página. Então, perca 2 minutos para ler só o abstract deste artigo http://www.springerplus.com/content/3/1/286 . Vou transcrever o ponto principal: “There were 38 adults (20 men, 18 women), of which 32 (88%) off-label use. In adults, methylphenidate was prescribed for depression, and this practice was associated with serious adverse events of drug dependence, overdose and suicide attempt”. Na conclusão, consta o seguinte “In half the reports where the use was considered to be off-label, the ADR was classed as serious”. ADR são os efeitos colaterais (adverse drug reaction), o que significa que a metade das pessoas que sofreu efeitos colaterais por tomar ritalina teve efeitos que foram considerados sérios. Então, pense bem no que você está arriscando. Eu tive alunos que relataram ter sofrido efeitos colaterais sérios tomando esse remédio.

5) Interações medicamentosas e contra-indicações: segundo a Food and Drug Administration – FDA, a ritalina tem interações medicamentosas até com vitaminas e remédios para gripe (http://www.fda.gov/downloads/Drugs/DrugSafety/ucm089090.pdf). Além disso, o mesmo relatório diz que o remédio não deve ser tomado por “crianças que são muito ansiosas, tensas ou agitadas”. Será que quem estuda para concurso está ansioso ou tenso?

6) Supondo que você não se convenceu até aqui. Acha que, mesmo que não haja prova de que o remédio funcione, que vale a pena arriscar os efeitos colaterais, que incluem morrer, eu perguntaria, será que a vantagem é tão grande assim? Eu tenho minhas dúvidas. Uma coisa é um programador de computador ou alguém que está escrevendo uma tese (não, eu não estou tomando isso) tomar Ritalina e trabalhar 14 horas. Ele completa uma tarefa e ela está pronta. Eu não preciso me lembrar constantemente do texto que escrevi na semana passada. Será que estudar tanto tempo por dia permitirá que você efetivamente absorva aquilo que estudou? Eu acredito que você consiga ler 300 páginas, mas você vai se lembrar delas daqui a duas semanas? Lembre que, se você ler 300 por dia, são 3000 para absorver ao final de 2 semanas. Será que dá? Eu me arrisco a dizer que não. E ninguém disse, nem o seu colega de cursinho, que Ritalina melhora a memória, só a concentração. Então, talvez esse negócio fosse bom pra mim, mas certamente não é pra você, que tem mais preocupação em absorver o que estudou do que em simplesmente cumprir metas de páginas.

7) Se, apesar de tudo, você tem mais dinheiro que bom senso e acha que mesmo assim, vai levar vantagem tomando ritalina ou qualquer outro medicamento que supostamente vai te ajudar a passar em um concurso, por favor, pelo menos procure um médico e faça um acompanhamento sério. Não vá apenas para pegar a receita, que ele certamente vai dar se você pedir. Eu não conheço cargo público que possa ser exercido por defunto (embora talvez alguns efetivamente sejam).

Ritalina, meus amigos, é só um exemplo, talvez o mais dramático. Infelizmente, vivemos um crise de consumo de medicamentos no mundo dos concursos, estimulada pelas metas irrealistas, pela pressão pela aprovação, pela noção equivocada de que o número de páginas e o colega da cadeira ao lado são como os jogadores do time adversário, que você precisa derrotar. No fim, não há nada de muito novo nisso. É só uma nova manifestação de um velho padrão de comportamento. Dê-me uma tarefa difícil e eu lhe mostrarei alguém disposto a vender um caminho fácil.

Um comentário:

  1. A rotina de estudos para certames públicos é esgotante, sem dúvidas, mas recompensadora. Excelente artigo! Na maratona dos concursos públicos nem tudo é válido. Saúde é crucial.

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