sábado, 23 de agosto de 2014

A importância de diagnosticar seus problemas

Muitas coisas vêm mudando na minha vida ultimamente, as quais pretendo compartilhar com vocês aqui no blog. Mas essa semana aconteceu uma que me fez refletir muito sobre algo que já escrevi aqui e que considero muito importante: a importância de identificar seus próprios defeitos.

Essa semana, troquei meu computador por um Mac. Isso era algo totalmente improvável para mim. Meu lado nerd nunca foi voltado para a informática. Sempre fui um usuário básico e levei muito tempo para superar as limitações de um razoável digitador de textos. Sou, devo confessar, da geração que entrou na adolescência ainda dividindo o MS-DOS e a máquina de escrever, coisas, ambas, que a maioria de vocês sequer deve ter visto em funcionamento. Eu já era bem grandinho quando surgiu o Windows 98. Computador não era pra mim. 

Mas o que mudou? O que mudou é que eu não aguento mais o Windows. O combo lentidão-travamento-reiniciar não funciona mais para mim. Mas, há 2 anos atrás, a Microsoft lançou um Windows prometendo uma revolução de tecnologia. Era o Windows 8. E qual foi a revolução? Acabou o botão iniciar. O desastre foi tão grande que, meses depois, eles lançaram um patch para voltar com o botão iniciar. 

Qual é a lição que podemos tirar disso para os nossos estudos? É preciso diagnosticar e corrigir o que está errado. Será que havia um usuário de computador, no mundo, que tivesse problemas com o botão iniciar? Vocês já ouviram alguém dizendo “eu odeio o Windows porque tem aquele botão antipático olhando pra mim do lado esquerdo da tela!”. Com certeza, não. 

Se você não entende o que está errado com o seu estudo, você é como o Pérola Negra (barco dos Piratas do Caribe) navegando sem aquela bússola engraçada. Você só irá para o lado certo por coincidência. E, muito provavelmente, irá para o lado errado. 

Eu vejo muitos alunos que não passaram de uma única primeira etapa com os livros do Marinoni e do Gilmar Mendes debaixo do braço, porque leram no Correioweb ou mesmo aqui no meu blog que eles são os melhores livros. Ok, são mesmo, mas o que adianta ter uma Ferrari se o que você quer é fazer um omelete? Toda ferramenta só é perfeita se aplicada na situação certa. Se você não passa na primeira etapa, o que você tem que ler é a lei, as súmulas do STF e STJ e, quem sabe, algum livro bem estilo resumo. 

Tenha muito cuidado com o ambiente de cursinho. Não caia na história de que você tem que ler o livro que o colega está lendo, porque é “muito mais profundo”. Se a sua prova não vai cobrar profundidade, não perca seu tempo nem seu esforço com livros profundos. Quando o colega te mostrar o Gilmar, não tenha vergonha de esfregar o Pedro Lenza na cara dele. 

Desculpem os leitores fiéis pela insistência nesse ponto. É que, quanto mais eu vivo nesse meio, mais eu vejo que esse é um problema “top 10” dos alunos. Entram na onda de exibir um conhecimento desnecessário para o concurso ao qual estão se submetendo e acabam demorando muito mais do que poderiam para passar. Saiba o que está errado com o seu estudo e procure o caminho certo para chegar onde você quer. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Apenas para os maus alunos

Se você está lendo isso é porque, provavelmente, não se identificou com minha postagem anterior e está pensando que eu deixarei você desamparado. Como já disse, eu não fui um mau aluno, então tenho menos propriedade para escrever para você, mas vou fazer o melhor que puder.

Primeiramente, é preciso avaliar as razões pelas quais você está se considerando um mau aluno. O que constitui um mau aluno, também em ordem de importância:

1) Você era o “Zé do caderno”. Nunca leu um livro jurídico na vida. Estudava apenas pelo caderno, nem sempre o seu próprio. O pouco tempo que dedicava ao curso fora da sala de aula era para estudar para provas e, mesmo assim, não mais que o necessário para ser aprovado.

2) Você não se destacava entre os seus colegas. Ou estava ali “no bolo” dos alunos médios (como diria minha diretora na escola) ou estava sendo reprovado.

3) Você estudou em uma faculdade que estava absolutamente tranquila com a sua decisão de transformar o curso numa festa de cinco anos, agradavelmente regada pela saudável paridade entre os gêneros que existe no curso de direito, diferentemente das engenharias ou da pedagogia. Se você continuasse respirando ao final de cinco anos, a faculdade te daria o diploma.

4) Você escreve mal.

5) Você tinha considerável dificuldade para compreender as matérias, mesmo se esforçando e estudando.

6) Você teve considerável dificuldade para passar na prova da OAB.

Tratemos um pouco de cada um desse itens. Se você não estudava na faculdade, é provável que você não tenha aprendido a estudar. Você não tem paciência para ficar horas e horas lendo livro, não sabe o que fazer para memorizar ou contextualizar o conhecimento que leu. Você está, então, limitado ao conhecimento que seus professores lhe transmitiram. O problema é que, sem estudo, por melhor que eles fossem, você provavelmente aprendeu pouco. O item 2 é consequência do 1. Como você não estudava, estava sempre na pindura das notas. Seus professores provavelmente se lembram de você por motivos não relacionados ao seu desempenho acadêmico ou não se lembram de forma alguma.

O item 3 é um catalisador do 1. Se você estudou apenas o que seus professores te ensinaram e eles não estavam preocupados em ensinar grande coisa, então você sabe menos ainda. Eu reitero que apostaria meu dinheiro em um bom aluno de uma faculdade ruim ao invés de um mau aluno de uma faculdade boa, mas se você era um mau aluno em uma má faculdade, sua situação não é nada boa.

O item 4 é independente dos anteriores. Eu digo aos meus alunos no 3º semestre: “Se você já percebeu que escreve mal, saia daqui hoje e procure uma aula de Português”. A faculdade não vai ensinar você a escrever e se você não tem um bom domínio da linguagem, ficará limitado para o resto da vida nessa profissão. Isso aqui não é engenharia! A linguagem é a nossa ferramenta. Mesmo que você seja muito bom, se escrever mal, vai ficar limitado a concursos que não têm prova aberta.

O item 5 também é independente e, na minha visão, é o mais doloroso. É a situação do aluno esforçado, que tem dificuldade. É aquele que estuda muito, mas o resultado não vem. Isso infelizmente é uma realidade. As pessoas têm capacidades de apreensão, compreensão e memorização distintas e, por isso, alguns têm mais dificuldade do que outros. Continuo insistindo que, no longo prazo, o esforço compensa a dificuldade. Mas dificuldade somada a malandragem é uma bomba nos seus resultados.

Por fim, o item 6 é a OAB. Todos sabem das minhas muitas críticas ao exame, cuja banalidade só é superada por sua arbitrariedade. Mas, é inegável que ele é um termômetro. Se você terminou o curso e, apesar de fazer cursinho, teve que prestar o exame três vezes ou mais, vamos reconhecer, não é o azar que está te atrapalhando. O azar pode justificar duas reprovações, mas não três.

Se você se identificou com os itens acima, especialmente com aqueles que estão mais para cima no grau de importância, você é um mau aluno. Assuma isso com tranquilidade e honestidade para consigo mesmo.

A primeira coisa a fazer, dada essa constatação, é se perguntar se concurso é mesmo a melhor decisão para você. Concurso é um empreendimento de disciplina e esforço intelectual. É dedicar muitas horas de sua vida a um objetivo. Não pense que apenas frequentar o cursinho para justificar para o seu pai que você não é um desempregado vai levar você à aprovação. Talvez seja melhor dedicar todo esse tempo a tentar estabelecer uma carreira na iniciativa privada, seja por conta própria, seja trabalhando para outrem. Honestidade, nesse momento, é algo que te fará bem.

Supondo que você tenha decidido que o que quer mesmo é fazer concurso, então, como diria o Sílvio Santos, em uma propaganda do finado Baú, você não precisa melhorar a sua vida, você precisa mudar de vida. Não vou perder tempo aqui repetindo tudo que já escrevi aqui no blog. Comece sua mudança lendo as postagens anteriores. Estabeleça uma rotina de estudos, um método de fixação, diagnostique suas reprovações etc. etc. Já escrevi muito sobre tudo isso. Leia especialmente a série de posts por onde começar e ordem e método.

Conscientize-se, entretanto, que essa mudança, tal como o Universo, não vai ser feita em um dia. Não adianta nada estudar 10 horas no primeiro dia e depois não aguentar nem olhar para o livro no segundo. Estabeleça um prazo que leve em consideração todo o tempo que você deveria ter estudado durante o curso e não espere resultados antes disso, salvo se você descobrir que tem muita facilidade para a coisa (isso, de fato, acontece com algumas pessoas).

Em segundo lugar, seja criterioso com seus próprios resultados. À medida que você for prestando concursos, fique atento a sua evolução ou à ausência dela. Escrevi muito sobre isso em A hora de parar. Se você presta concurso só para enganar alguém, procure não enganar também a si mesmo. Sair da prova dizendo “foi fácil” e depois ficar na posição dez mil excedente pega muito mal.

Em terceiro lugar, se você quer mesmo passar, prepare-se para privações. Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu não sou adepto do sofrimento. Acho, sim, que dá para passar sem sofrer. Mas não para quem era um mau aluno. Isso porque o seu limite de sofrimento é muito baixo. Você se acostumou tanto a uma vida de esbórnia que certamente vai se sentir um monge se for estudar seriamente. Mas, reitero, isso não significa que você precise abandonar o convívio social. Significa apenas que você não vai ser tão social quanto era na faculdade. Digamos, dez por cento do que era.

Pra terminar, os dois assuntos diferentes da turma da gandaia: quem escreve mal e quem tem dificuldade. Se você escreve mal, repito, procure um professor. Não é vergonha estudar Português, como muita gente parece pensar. Eu estou fazendo aulas de tênis (resolvi por a prova a tese que alguém escreveu em um comentário do post “A hora de parar”, segundo o qual, se eu quisesse mesmo, poderia me tornar o novo Nadal. Por enquanto, devo dizer, esse projeto vai mal) e, depois de mim, entra na quadra, com o mesmo professor, um menino de 10 anos chamado Giovani. Nem por isso eu saí da aula ou me senti mortalmente envergonhado. Português é a mesma coisa. Se você não aprendeu na escola, não tenha vergonha de buscar sanar essa dificuldade.

E você que estuda muito e, mesmo assim, tem dificuldade de aprendizado. Já vi muitos alunos assim e, confesso, é uma situação dolorosa. Nós somos treinados para acreditar que o resultado é uma consequência direta e necessária do esforço. Dói muito quando percebemos que não é ou, pelo menos, não para todos. Eu peço a você, que está nessa situação, que se imagine como um joalheiro: você só fará um bom trabalho se o fizer bem lentamente. Sua preocupação não é com quantidade, mas com qualidade. Não importa que você leia uma página por dia, desde que você a apreenda. Minha postagem “20 por dia: o desafio” certamente é pra você. Aproveite que você terminou a faculdade e estabeleça um ritmo próprio de estudo, desvinculado de uma turma. Procure também encontrar a metodologia de estudo que se adapta melhor ao seu perfil de aprendizagem. Aula, leitura, exercícios, um pouco de cada, enfim, experimente bastante. Nosso método nas faculdades ainda é muito expositivo e nem todo mundo se dá bem com isso. Pode ser que a sua dificuldade seja apenas de adaptação a esse estilo e não propriamente com a matéria.

Enfim, meus caros maus alunos, saibam que a situação de vocês tem solução. Um mau aluno pode passar em concurso e muitos, de fato, passam. Mas você vai ter que pagar a dívida com o seu passado.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Apenas para os bons alunos

Ressaca pós-copa é o pior tipo de ressaca que existe. Parece primeiro dia de aula. Ao contrário de alguns fanáticos, eu nunca gostei de ir para a escola. Na verdade, não é bem isso. Eu até gostava da escola. O que eu não gostava é que o estado “escola” era excludente do estado “férias”, do qual eu gostava muito mais. Por isso eu nunca gostei do primeiro dia de aula que, além de representar o fim das férias, representava outra coisa com a qual eu não me dava muito bem: mudança. 

Explico. Eu sempre fui um bom aluno e, por isso, um novo ano representava um questionamento do status quo, no qual eu já havia afirmado meu lugar. Novo ano, novo tudo. Novos professores, nova matéria... E se eu descobrisse um bloqueio mental para alguma coisa e encravasse naquele novo ano?! 

Mas por que estou contando isso? É que a minha experiência como bom aluno me fez diagnosticar que bons alunos também têm problemas. E isso é mais inusitado do que parece, principalmente, para um bom aluno de direito. Afinal, direito é uma disciplina intelectual. O silogismo é: se o direito é uma disciplina que exige estudo e se eu sou um bom aluno, logo, eu sou bom em direito. Mas, meus caros bons alunos, esse estado de ser bom também tem seus problemas. 

Mas, antes de tudo, é preciso fazer um diagnóstico. Quem é bom aluno? Não existe, é claro, uma fórmula mágica para dizer quem é bom, mas eu colocaria os seguintes requisitos, do mais importante para o menos importante: 

1) Durante a Faculdade, você dedicava pelo menos 8 horas semanais, fora das aulas, para leitura de livros indicados pelo professor. 

2) Você obteve resultados acima da média da sua turma durante o curso. 

3) Você estudou em uma faculdade com uma proposta pedagógica séria. 

4) Você tinha facilidade para compreender as matérias, mesmo quando não as estudava adequadamente. 

Uma rápida explicação sobre os requisitos. O primeiro é, de longe, o mais importante. Quem estudou lendo doutrina durante a faculdade, indo além do simples conhecimento da sala de aula, 1) se acostumou a estudar, criando mais tolerância para o esforço que o estudo demanda; 2) criou uma base de conhecimento sólida, que permite a apreensão mais fácil do conhecimento necessário para o concurso. O segundo requisito é uma consequência do primeiro. Aprendi, ao longo da minha vida, que não existe essa história de que é melhor ser um rei entre os pobres ou um pobre entre os reis (ou coisa que o valha). O bom aluno se destaca, no longo prazo, mesmo quando vem de uma escola muito mais fraca para uma muito mais forte. Ele pega o ritmo. O mau aluno será sempre mau, esteja na melhor faculdade do mundo ou na pior. Ele sempre se nivela por baixo, pelo mínimo. 

O terceiro requisito é o mais complicado. Já disse várias vezes que fazer uma boa faculdade não é fazer uma faculdade boa. Eu apostaria meu dinheiro na aprovação de um excelente aluno de uma péssima faculdade do que no pior aluno da melhor faculdade. Mas sou obrigado a reconhecer que, perifericamente, esse fator “faculdade boa” tem importância. Ele aumenta suas chances de ter melhores professores, que lhe transmitam o conteúdo com mais qualidade, evitando que você tenha buracos na sua formação. 

Por fim, o último requisito, o menos importante, é o da chamada “facilidade” ou “inteligência”. Quantas vezes já ouvimos um professor dizer “Fulano é tão inteligente, pena que não se esforça”. Eu digo: então ele é burro, porque desperdiça a inteligência que tem. Direito é uma ciência que exige muito esforço e pouco talento. Não é como a engenharia, a medicina ou as artes, em que a pessoa pode simplesmente ser boa nisso. Só se aprende Direito estudando. Mas, de novo, perifericamente, eu reconheço que quem tem facilidade para aprender tem uma vantagem, pelo menos potencial, para se tornar um bom aluno. 

Pois bem, se você se reconheceu nesses elementos ou em alguns deles, você é um bom aluno e eu quero tratar aqui de alguns problemas que você provavelmente tem: 1) Você tem elevadas expectativas sobre si mesmo e sobre o tempo que vai levar para passar; 2) Você é resistente a mudanças, especialmente em relação ao seu método de estudos; 3) Você tem baixa tolerância a frustração. 

O primeiro problema é o mais comum e evidente. O bom aluno sai da faculdade achando que, ao final do primeiro ano de formado, vai ter um cargo público e, logo após três anos, vai ser juiz ou MP (ou algo mais que lhe interesse). Era isso que eu pensava e isso é um equívoco. Você deve, evidentemente, ter metas de aprovação e monitorar o seu progresso, fazendo um diagnóstico das suas reprovações. Mas estabelecer prazos tão apertados só servirá para pressioná-lo. Ser aprovado, hoje em dia, é algo que, em regra, leva tempo. Pense em você mesmo sempre como regra. Se for exceção, ótimo, mas não se julgue uma antecipadamente. Então, mesmo que você tenha se formado como o melhor de sua classe, o melhor é "baixar a bola" um pouco e ter consciência de que a aprovação pode demorar mais do que você gostaria. 

O segundo problema é o da mudança, ou "em time que está ganhando não se mexe". Quem é bom aluno acha que, sendo bom, sabe estudar e, por isso, não precisa mudar os métodos que utilizou na faculdade. Isso não é verdade. O estudo para concurso é diferente. Por exemplo, conheço muitas pessoas que se perdem porque querem estudar por livros muito profundos para a primeira etapa. Primeira etapa (salvo MPF) é lei e jurisprudência. Não adianta perder tempo lendo tratados. Conheço pessoas muito boas que nunca chegaram onde queriam porque não conseguem passar da primeira etapa. São "desorientadas" com o estudo. Correm de livro em livro e não entendem porque seus resultados são tão ruins, quando eram alunos tão bons. É preciso corrigir isso. 

Por fim, a tolerância ao fracasso. Esse é o problema psicológico. Quem quase nunca fracassou na vida, quando chega no concurso e não atinge o resultado esperado, tende a um desequilíbrio emocional em um prazo muito curto. Recebo mensagens de pessoas recém-formadas ou com dois ou três anos de formatura, completamente desestabilizadas porque não estão passando no concurso que queriam. Pessoal, vamos voltar para a Terra! A concorrência é muito grande, as provas são muito difíceis e a matéria é enorme. Eu sei que é difícil (acreditem, ninguém é mais dramático do que eu), mas, meu caro bom aluno, procure evitar que a frustração das elevadas expectativas que você tinha durante a graduação tirem você do seu caminho. 

Duas lições ficam: no longo prazo, esforço vale mais que capacidade. No longo prazo, não é infrequente que alunos piores (não os péssimos, mas os médios) cheguem mais longe que alunos melhores, porque eles aguentam ouvir 99 nãos antes de ouvir um sim. Os bons alunos têm dificuldade em aguentar isso e, para parar de sofrer, preferem diminuir seus objetivos e se contentar com uma meta menor. Esse é um grande obstáculo para um bom aluno superar.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ainda os tempos mortos

Recebi um comentário muito interessante na postagem anterior, “Tempos mortos”, que resolvi destacá-lo aqui, já que muita gente não lê os comentários:

“De fato, no meu histórico de estudos nesses dois anos pude constatar algo que vai ao encontro do que relatou. Eu trabalho 8h por dia (9h contando com 1h de almoço. Já sou servidor, mas de nível médio), ou seja, tenho um tempo bem curto. Durante a semana, eu me rebolo pra conseguir todas as brechas possíveis pra estudar, independente do lugar. No meu trabalho eu viajava bastante durante o tempo, ou seja, quebrava a rotina, mas mesmo assim conseguia bons resultados no estudo otimizando todos os tempos possíveis. Outro detalhe é que meu trabalho exige muita produção intelectual, o que quer dizer que queimo muito a cabeça no dia, o que já me cansa bastante. No entanto, durante esse período (até hoje mesmo), constatei algo: eu rendo infinitamente mais durante um dia da semana do que no meu sábado que, em tese, deveria ser livre. Incrível isso! E olha que sou muito disciplinado!!!! É impressionante como no sábado os estudos andam a passos bem mais lentos (quando ocorrem a contento) do que em qualquer dia da semana que tenho bem menos tempo.
O domingo, então, nem se fala, pois aqui já entra aquela preguiça, enfim.

No entanto, mesmo com esse cenário, meus estudos da semana já me renderam ótimos resultados em concursos jurídicos. Estou bem colocado em um de analista (com probabilidades de ser nomeado ainda esse ano), relativamente bem em outro de oficial de justiça e mais ou menos em outro de analista, também.

Digo isso não pra me gabar e dizer que mesmo sem aproveitar o meu final de semana de forma ideal pra estudar eu consegui bons resultados. Não! Apenas pra relatar que mesmo encontrando, digamos, obstáculos rotineiros a serem administrados (em relação a trabalho, viagens a trabalho, ainda o fato de ter que fazer atividades domésticas, pois não moro com meus pais) eu consegui, com muito esforço, dar um upgrade em meus estudos, o que me logrou alguns resultados consideráveis.

Vejo colegas meus de trabalho que moram com os pais (ou seja, não tem atividades domésticas pra fazer) e não têm namorada pra dar atenção reclamando de falta de tempo pra estudar, tirando licenças só pra estudar ou outros afirmando que só vão se dedicar quando tiverem licença, ou forem pra um setor que o permita. Enfim, isso fica muito claro que tudo vai do "querer" da pessoa, que cada um se impõe seus próprios "obstáculos". Fato é que ficar esperando a "hora certa", as condições consideradas "ideais" para se estudar, já era, é tempo perdido.

Da mesma forma que eu, existem uma série de outras pessoas que superam todos os ditos obstáculos e conseguem aprovação em concursos que exigem ainda mais. Na verdade, eu me vejo ainda com muita sorte, pois apesar do contexto e de já ser casado, ainda não tenho filhos para ser outro fator a ser administrado na hora do estudo.
Abraços,”

Esse leitor acertou na mosca, e em vários pontos. Eu também tenho a sensação que o sábado ou, principalmente, o domingo, aquele dia em que você tem mais tempo para estudar, é o dia que rende menos. Não tem clima. Você fica ali horas e o rendimento é muito pequeno. É preciso tentar equilibrar as coisas. Nesses dias difíceis, faça um pacto consigo mesmo de estudar menos horas, ao invés de se propor a ficar o dia todo, mas de fazer render essas horas o máximo possível. Essa história de muito tempo acaba significando, muitas vezes, apenas um aumento do sacrifício, não do benefício.

Também é difícil estudar para quem tem um trabalho que exija atividade intelectual, como é o caso da maioria. Eu mesmo sinto isso. Tenho que fazer minhas atividades do doutorado à noite, depois de toda a minha jornada no MPF. Minha dica é deixar para os dias em que você estiver mais cansado as atividades de estudo que exigem menos atenção ou são mais dinâmicas, como é o caso de assistir aulas ou resolver exercícios. A leitura deve ser reservada para dias em que você esteja melhor, uma vez que ela exige mais concentração.

Por fim, queria fechar com o problema da distribuição do tempo ao longo do estudo. É preciso que você se organize e, principalmente, evite desconcentrações. Como nós atualmente estudamos no computador com cada vez mais frequência, tem-se tornado cada vez mais difícil manter-se concentrado. É uma olhadinha no facebook, uma mensagem no whatsApp, uma checada em um portal de notícias. Isso é um veneno! Se você está cansado, faça uma pausa e depois volte com toda a concentração. Mas não fique “picando” seu estudo com outras atividades. Pode parecer que só leva um minutinho para responder a uma mensagem, mas o tempo perdido para a recuperação da concentração é muito maior.

O mesmo vale para tarefas domésticas. Você até pode realizá-las durante as pausas, como uma forma de esfriar a cabeça. Mas isso deve fazer parte do plano. Ficar se interrompendo a todo momento para resolver isso, fazer aquilo etc. é, do mesmo modo, um problema considerável.

Por último, lembre-se de que a capacidade de absorção do cérebro é limitada. Já escrevi, inúmeras vezes, que tempo de estudo não se mede em “horas-bunda”, mas no quanto você aprendeu. Você precisa monitorar o que está aprendendo ou não para saber a que horas deve interromper o estudo.

Tempo é o seu ativo mais valioso. Cada minuto perdido significa um grande prejuízo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Tempos mortos

Um dos principais problemas, sem dúvida alguma, do estudo de concursos, é o bom aproveitamento do tempo. Para quem trabalha, a questão é achar horas do dia para estudar. Chegar em casa cansado e ainda passar horas estudando não é, seguramente, uma coisa fácil de se fazer. Por outro lado, quem não trabalha, tem o problema de otimizar o tempo de estudo, uma vez que ele parece existir em excesso. Portanto, vamos por partes. 

Existe uma expressão, muito utilizada pelos processualistas, que é chamada de tempo morto. O tempo morto no processo é o período que o processo passa sem ser movimentado, aguardando uma providência burocrática. Por exemplo, entre o protocolo da petição e a juntada da mesma ao processo, existe um tempo morto. Um dos benefícios do processo eletrônico é, aliás, acabar com os tempos mortos. 

Para o estudante/trabalhador, acho que otimizar os tempos mortos pode ser uma opção atraente. Se você tem uma hora e meia de almoço e gasta só uma hora para almoçar, use essa meia hora como tempo de estudo. Parece muito pouco, mas, ao final da semana, você terá estudado 150 minutos (quase 3 horas) a mais em uma semana. Em um mês, serão mais de dez horas de estudo, o que não é nada desprezível.

Para esse método funcionar, entretanto, você tem que ter um bom método de fixação. Algo que permita que você retome a leitura, no dia seguinte, sem se esquecer do que leu no dia anterior. É que ler as coisas em pequenos pedacinhos é mais difícil. Mas não é impossível. Se você fizer um resumo ou grifar criteriosamente o que leu no dia anterior, você pode reler rapidamente esse trecho no dia seguinte e retomar de onde parou. 


Portanto, procure evitar ritualizar o estudo. Tive um estagiário e aluno, o qual agora tenho a honra de ter como colega, que uma vez me disse que só conseguia estudar uma hora inteira. Se ele não tivesse uma hora inteira para estudar, não estudava nada. Eu disse a ele que ele precisava de um psiquiatra! (ou, pelo menos, ele me contou isso, anos depois. Soa como algo que eu diria, mas eu realmente não me lembro de ter dito). Mas disse isso com boa intenção. Acho que quem se condiciona a estudar apenas sob condições ótimas, como dizem os entendidos de plantão (ambiente silencioso, bem iluminado, com uma boa cadeira etc.) está se privando de um valioso tempo de estudo. Eu sempre estudei em qualquer lugar. No ônibus, em ambientes barulhentos, enfim, tentava dar o melhor uso possível ao tempo que eu tinha disponível. E acho que esse foi, para mim, um importante fator de aprovação, uma vez que eu também já trabalhava enquanto estudava. 

O outro lado da moeda é o estudante exclusivo. Aqui os riscos são outros, mas igualmente grandes. Ter tempo demais pode te condicionar a avançar devagar demais. Sabe aquele trabalho que você tinha tanto tempo para fazer que acabou terminando na véspera? É exatamente isso. Quem tem tempo demais, costuma achar que avançar lentamente é melhor. Estudo lento não é sinônimo de estudo de qualidade. Estudar com qualidade é fixar o que estudou. Se você consegue fazer isso em 15 minutos, excelente. Se você leva uma hora, pior pra você. Assim, quem tem muito tempo para estudar deve sempre agir como se tivesse pouco, buscando estratégias para otimizar o estudo. Mais uma vez, fica a dica de leitura de minhas várias postagens sobre métodos de fixação. 

O outro problema de quem tem muito tempo de estudo é o conhecido “jaque”. “Já que você está aí, leve o cachorro para passear”, "já que você está aqui, troque a lâmpada” e por aí vai. Limite você mesmo e sua família em relação o “jaque”. Tempo de estudo é tempo de estudo. Não fique interrompendo isso a todo momento. Procure tratar o estudo como um trabalho. Durante o horário que você reservou para ele, sua obrigação é apenas com ele. Aja como se não existisse alternativa, tal como no trabalho. Tenha compromisso com você mesmo. 

Lidar bem com o tempo é mais que um passo importante. É essencial para o sucesso.     

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Orgulhos e tristezas de um professor

Meus amigos, depois de tantos problemas, ainda apenas parcialmente resolvidos, com o domínio do site, passo por aqui para compartilhar as alegrias e tristezas de um professor. Quase todos os meus alunos do curso para a prova oral foram aprovados. Dos 11 primeiros, 9 foram meus alunos. Fico muito feliz de ter contribuído, ainda que minimamente, para a vitória que obtiveram. Será um prazer recebê-los, agora como colegas. Mas também compartilho a dor daqueles poucos que, infelizmente, ficaram pelo caminho. Perder na prova oral não é fácil. Espero que ainda sejam bem sucedidos nos recursos. 

E atenção pessoal do TJ SP. Estamos planejando um curso de prova oral para o final de abril. No TJ PR consegui 100% de aprovação. Espero encontrar também vocês. Os interessados, por favor, entrem em contato com o Daniel, via daniel@verbojuridico.com.br.

sábado, 8 de março de 2014

Método de fixação: o valor das anotações

Quem acompanha o blog há algum tema sabe que o tema pelo qual tenho especial predileção é o relativo aos métodos de fixação. Porque, convenhamos, esse é o maior problema, de longe, para quem se dedica aos concursos públicos. Não é difícil entender as matérias que caem nas provas. Em regra, os temas não têm uma complexidade suficiente para que você saia de uma aula pensando “não entendi absolutamente nada”, como ocorre com muitos alunos de engenharia, ao se depararem com as matérias de cálculo, no primeiro semestre. 

Nosso problema é armazenar todos esse conhecimento que aprendemos nos livros e nas aulas de modo a permitir que ele seja habilmente utilizado no momento da prova. Já escrevi muito sobre a necessidade de se ter um método de fixação durante os estudos e acho que quem ainda não escolheu o seu deve voltar e dar uma vasculhada nas postagens mais antigas. 

O que quero tratar hoje é o valor das anotações de aula. É cada vez mais comum ver alunos que assistem aulas sem anotar absolutamente nada. As justificativas (a palavra que eu tinha usado originalmente era “desculpas”) são as mais variadas. A mais comum é: “se eu anoto, não consigo prestar atenção” ou “vou copiar as anotações do colega depois” ou “tenho a aula gravada, posso assistir de novo se quiser” ou ainda “não acho que anotar ajude”. 

Tudo isso, na minha opinião, está errado e acho que é essencial que você faça anotações em todas as aulas que assistir. Isso porque, a menos que você seja taquígrafo, não vai conseguir anotar literalmente tudo o que o professor disser. Então, você é obrigado a entender o que ele disse e produzir um conhecimento novo, com suas próprias palavras. Assim, o conhecimento tem que passar pelo filtro do seu cérebro antes de chegar ao caderno. E isso é uma ferramenta de memorização poderosa, mesmo que você nunca mais leia o que anotou. 

A outra questão é a distração. Se você não anota, é muito mais provável que, ao longo da aula, você “viaje” e perca coisas importantes. A preocupação com a anotação garante o foco no que é ensinado. 

Terceiro: anotar é uma habilidade e, como qualquer outra, pode ser desenvolvida. Ainda que você pense que tem dificuldades de prestar atenção na aula e anotar ao mesmo tempo, se você for se treinando para isso, certamente vai ficar melhor a cada dia. Essa história de não consigo prestar atenção se anotar é, para mim, muito mais uma desculpa para preguiça do que um obstáculo insuperável. 

Quarto: por todo o anterior, fica claro que xerocar o caderno do colega não tem o mesmo valor de fazer uma anotação própria. O que interessa na anotação, mais do que o resultado em si, é o exercício de anotar. 

Quinto e último: por muito febril que sejam suas anotações, você nunca vai passar muito de 5 a 6 páginas por aula de 50 minutos. Isso significa que, posteriormente, você vai levar menos de 10 minutos para reler essas páginas e, desse modo, revisitar os 50 minutos de aula. Assim, por muito que você tenha o material gravado, a anotação significa que, caso você precise retomar aquele conhecimento, não perca tanto tempo assistindo a aula inteira de novo. 

Anotar ajuda, e ajuda muito. Você pode ter o power point do professor, pode ter a aula gravada, pode ter qualquer coisa. É a anotação que vai fazer com que aquela ideia deixe de ser do professor e passe a ser sua. Deixe de preguiça, compre um caderno novo e comece o semestre anotando.